quinta-feira, 11 de maio de 2023

Quem foi Émile Durkheim

 

Émile Durkheim foi um sociólogo francês do século XIX que contribuiu com diferentes ideias, ideologias e pesquisas das áreas sociais. Além de sociólogo, também era psicólogo e filósofo.



O pensador é um dos mais importantes da história, pois seus conceitos e pesquisas reverberam até os dias atuais.

Junto com Max Weber e Karl Marx, formam a tríade dos pensadores clássicos.

Um dos maiores feitos de Émile Durkheim foi ter definido o método sociológico de pesquisa, o que tornou essa área de estudos uma ciência independente das outras.  

A partir dessas definições, os estudos sociológicos precisavam passar por métodos específicos de estudo e análise.

O intuito era diminuir as interferências de outras áreas na sociologia, entendendo-a como autônoma.

Também foi o criador da Teoria dos Fatos Sociais, (...)

Essa teoria afirma que fatos gerais que marcam a sociedade de alguma forma acabam sendo mais influentes do que os fatos e pensamentos individuais de cada pessoa. 

Principais livros de Émile Durkheim

Émile Durkheim foi um estudioso, pesquisador e professor por toda a sua vida e, por isso, contribuiu com inúmeros livros da área de sociologia.

Suas obras são referências para novos estudos ainda nos dias de hoje.

Veja os nomes dos principais livros do sociólogo para pesquisar:

  • A Divisão do Trabalho Social (1893) 
  • A Educação Moral (1925 – publicação póstuma)
  • As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912) 
  • As Regras do Método Sociológico (1895) 
  • Educação e Sociologia (1922 – publicação póstuma) 
  • Elementos de Sociologia (1889) 
  • O Socialismo (1928 – publicação póstuma)
  • O Suicídio (1897) 
  • Sociologia e Filosofia (1924 – publicação póstuma) 
(...)

 Durkheim contribuiu de diversas maneiras para os estudos da sociedade e, a partir de suas obras, é possível citar 5 conceitos importantes que influenciam as pesquisas sociais até hoje.

1. Fato social

O conceito mais importante e mais frequente nas provas, a teoria do Fato Social, refere-se ao entendimento da sociedade como uma realidade objetiva, que pode ser estudada assim como as outras áreas.

Para Durkheim, o fato social conta com três elementos essenciais que o tornam factuais: generalidade, a externalidade e a coercitividade.

Em sua teoria, o sociólogo afirma que os fatos sociais são externos ao indivíduo e existem independente de nossa consciência sobre eles.

Não são imutáveis, mas, para serem alterados, precisam de um grande esforço.

O ser humano começa a ter contato com esses fatos desde seu nascimento e internaliza muitos deles. Esse processo foi chamado de “princípio da socialização”.

Com isso, Durkheim afirma que os fatos sociais influenciam a maneira de pensar de um indivíduo, muito mais do que o oposto.  

2. Instituição social e anomia

Outro estudo importante do sociólogo foi sobre a instituição social e seu enfraquecimento (anomia).

Para ele, a instituição social é formada por um conjunto de regras que visam conservar uma organização de grupo e, pelo desejo de conservação, é necessariamente tradicionalista.

A anomia, por sua vez, é a definição de um momento em que as regras deixam de ser claras e, com isso, a instituição social perde seu limite.

O resultado é uma sociedade com indivíduos afastados entre si socialmente falando, sem consciência coletiva.  

3. Consciência individual e coletiva

A consciência coletiva é a ideia de que todos os que convivem em uma mesma sociedade “criam” maneiras de agir que são comuns a todos.

Isso acontece tanto pelos fatos sociais quanto pela ideia de instituição social, que vimos anteriormente.

Por sua vez, a consciência individual refere-se ao âmbito pessoal, as vontades, gostos e pensamentos de cada um, vistos como únicos.

Um exemplo dado por muitos pesquisadores é o da vestimenta: a sociedade indica que temos que andar vestidos, mas cada um escolhe com que roupa deseja se vestir.  

4. Solidariedade orgânica e mecânica

O conceito da coesão social é a base para essas ideias e diz que a sociedade está baseada no consenso existente entre os indivíduos.

Segundo ele, sociedades arcaicas eram definidas por uma solidariedade mecânica, em que os indivíduos compartilhavam as mesmas crenças, valores e formas de trabalho, por isso, criaram uma sociedade coesa.

Depois, surgiu a solidariedade orgânica, impulsionada pela divisão do trabalho.

Assim, os indivíduos compartilham os valores individuais, mas as relações de trabalho mudaram, sendo cada vez mais individuais e criando relações de poder entre as pessoas. Mesmo assim, existe a coesão por dependência.

Isso se aplica desde as relações pessoais até as definições das instituições sociais, cultura e ideologias.  

5. Suicídio

Sendo Durkheim também psicólogo, um conceito criado por ele e utilizado até hoje em algumas vertentes do estudo da mente é o de suicídio.

De acordo com o pesquisador, existem diferentes tipos de suicídio, que também se relacionam com suas outras teorias.

  • suicídio egoísta: ego pessoal sobrepõe-se ao ego social, o indivíduo não enxerga motivos para continuar vivo nem em sua vida pessoal nem na sociedade em que vive;
  • suicídio altruísta: ego social maior que o individual, a pessoa enxerga os valores da sociedade como maiores que si próprio e escolhe encerrar a vida em “benefício” da sociedade. Pilotos kamikaze e homens-bomba são exemplos;
  • suicídio anômico: acontece em momentos de desordem e caos (anomia), que levam ao desespero os mais afetados. Assim, deixam de ver sentido na vida ou têm sua saúde mental afetada pelos acontecimentos. Momentos de crise e de guerras são exemplos.

Os conceitos de Émile Durkheim reverberam até os dias de hoje e, por isso, é essencial entendê-los ...

FONTE:

https://ead.faesa.br/blog/emile-durkheim-sociologia#:~:text=Em%20sua%20teoria%2C%20o%20soci%C3%B3logo,nascimento%20e%20internaliza%20muitos%20deles.

O que é psicologia social e como trabalhar na área?


A Psicologia é uma ciência que estuda o ser humano, seus comportamentos e processos mentais. Por envolver um amplo campo de análise, ela se divide em alguns ramos. A Psicologia Social é um, juntamente das Psicologias Clínica, Hospitalar, Escolar, Forense, Esportiva, Organizacional, entre outras.

A área é altamente relevante, pois o trabalho do profissional contribui para a construção de uma coletividade de olhar mais empático e acolhedor. É a Psicologia Social que nos dá respostas para perguntas do tipo: “Por que agimos de formas distintas quando sozinhos e quando em grupo?”.

O que é Psicologia Social?

A Psicologia Social estuda a relação do indivíduo com a sociedade. Ela observa comportamentos (ou suas intenções), nos momentos em que estamos cercados de outras pessoas. Uma de suas principais ideologias é que nosso comportamento é diferente quando estamos sozinhos e quando estamos em comunidade.

Para a Psicologia Social, dependendo do poder do membro de um grupo, ele pode levar outras pessoas a cometerem atos negativos ou positivos. É comum existir isso em equipes de empresas. Porém, também podemos encontrar exemplos na História, com ditadores que conseguiram convencer milhares de pessoas a cometerem atos cruéis. O psicólogo social estuda as melhores maneiras de intervir em casos como esses.

Outro assunto da Psicologia Social é o “comportamento de manada”, que leva, por exemplo, pessoas a estocarem comida e papel higiênico em um contexto de quarentena e pandemia. Por fim, outra de sua função é examinar quais regras funcionam melhor a cada grupo, de modo que o convívio entre todos seja mais pacífico.

Qual é a diferença entre Psicologia Social e Serviço Social?

É comum a confusão entre as duas áreas, contudo não são a mesma coisa. Para começar, o psicólogo social se formou em Psicologia, enquanto o assistente social no curso de Serviço Social.

O grande foco do psicólogo é intervir no comportamento de grupos, de modo a promover melhores relações e a contribuir para a melhoria da saúde mental de todos. O assistente social, por sua vez, tem como grande objetivo garantir os direitos humanos das pessoas menos favorecidas

De qualquer forma, é de praxe os dois profissionais trabalharem juntos. Eles podem intervir em grupos marginalizados e em ONGs, por exemplo, cada um contribuindo com suas competências.

Em que tipo de trabalho a Psicologia Social é necessária?

A Psicologia Social tem muitas utilidades e várias possibilidades de atuação. Contudo, para garantir mais sucesso após a graduação, é importante a plena dedicação aos estágios. Tenha em mente que, além de eles proporcionarem conhecimentos práticos, muitas empresas costumam exigir a experiência prévia antes da contratação efetiva. 

Agora, confira alguns dos trabalhos nos quais essa profissão é necessária!

Na exclusão social

O trabalho pode ser feito em qualquer grupo vítima de exclusão social: 

  • presidiários de bom comportamento;
  • mães adolescentes de baixa renda social.
  • adictos de drogas;
  • pessoas em situação de rua.

Nesses casos, é comum a terapia em grupo, em que os membros falam sobre seus problemas e recebem apoio e orientação. Um dos objetivos é fazer com que essas pessoas adquiram habilidades comportamentais de modo que sejam inseridas novamente na sociedade.

Nas lutas de classe

Lutas contra grupos historicamente oprimidos, como as mulheres e os negros, também fazem parte do objeto de estudo do psicólogo social. Na prática, ele pode atuar em pesquisas e em intervenções. Combate ao feminicídio e ao preconceito racial são alguns temas comuns.

Em grupos diversos

Outro papel do profissional é ajudar pessoas a lidarem melhor com os papéis sociais atribuídos a elas. Por exemplo, cada cultura tem certas expectativas sobre a função de uma mãe, de um pai, de um policial, de um professor etc. Tais expectativas geram em nós a obrigação de cumpri-las. O psicólogo social nos ajuda a entender isso e a encarar tudo de forma mais saudável. 

No marketing

Campanhas de marketing também contam com a ajuda do psicólogo social. Ele estuda o comportamento do consumidor e assessora marcas e meios de comunicação a realizarem propagandas atrativas, de acordo com o perfil do público. 

Por exemplo, o profissional pode auxiliar em uma campanha do Governo, cujo foco seja a conscientização da importância de não estocar papel higiênico durante uma pandemia. Para isso, o profissional precisa ter conhecimento sobre a cultura e sua forma de pensar, de modo a encontrar bons argumentos e garantir que a mensagem seja dada sem reações emocionais adversas.

Em empresas

Quando trabalha em empresas, o psicólogo social ajuda a parte gestora a instituir práticas de socialização aos novos colaboradores e a gerir conflitos. Outra possibilidade é cuidar do clima organizacional, evitando que determinadas posturas de grupos prejudiquem a motivação e a produtividade no ambiente de trabalho. Ou seja, ele também age antecipadamente e não somente após o surgimento de um problema.

Quais são as vantagens de atuar na área?

Com todas essas possibilidades de atuação, já deu para perceber que trabalhar com Psicologia Social é muito interessante, concorda? Além disso, o dia a dia de trabalho é recompensador. O fato de contribuir para a criação de um mundo mais empático e a possibilidade de aumentar a qualidade de vida da sociedade são grandes motivadores para quem deseja atuar como psicólogo social.

Leia mais em:

https://blog.unopar.com.br/psicologia-social/#:~:text=A%20Psicologia%20Social%20estuda%20a,e%20quando%20estamos%20em%20comunidade.


sexta-feira, 5 de maio de 2023

O Estádio do Espelho


"O espelho, são muitos."
 (Espelho.Guimarães Rosa)


.

 O "eu" é um produto de uma identificação com o outro. O espelho é tudo aquilo que é capaz de devolver para você a sua imagem. (...) é essa superfície que possibilite que você se reconheça - é o grupo, é o olhar do outro, toda superfície que te devolve, que apresenta é o espelho.

Sugestões de leitura conectando-se à literatura em Psicanálise: (O ESPELHO/Machado de Assis).

terça-feira, 25 de abril de 2023

As principais contribuições de Jacques Lacan para a educação



Para Jacques Lacan, o bebê só distinguirá o que lhe é interno ou externo ao reconhecer-se, ou ao Outro, na visão 

Na Paris dos anos 1920, o psiquiatra e psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) frequentava livrarias e se reunia com os surrealistas, assistia com entusiasmo à leitura pública de Ulisses, de James Joyce (1882-1941), ligando-se a escritores, poetas, artistas plásticos, filósofos. Formado em medicina, Lacan orientou-se desde o começo de sua vida profissional para a psiquiatria e a psicanálise. Mas, por seus interesses e suas práticas mais abrangentes que os da psicanálise da primeira geração, nunca foi reconhecido pela Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), para a qual apresentava trabalhos que não eram levados em conta.

Seu anticonformismo parecia causar irritação em seus pares na psicanálise de então. No entanto, fora dos círculos psicanalíticos, era considerado brilhante intelectual. Foi o único, entre os grandes intérpretes da história do freudismo, a dar à obra freudiana uma estrutura filosófica e a tirá-la de suas bases biológicas, sem com isso cair no “espiritualismo”.

A partir de 1936, Lacan iniciou-se na filosofia hegeliana, quando assistia ao seminário de Alexandre Kojève (1902-1968). Frequenta­va sedes de revistas culturais e participava de reuniões no Collège de Sociologie, onde conviveu com diversos intelectuais, entre os quais o escritor Georges Bataille (1897-1962), cuja esposa viria a ser a segunda mulher de Lacan. Desses anos de grande ebulição intelectual e teórica tirou a certeza de que a obra freudiana devia ser relida “ao pé da letra” e à luz da tradição filosófica alemã.

Em 1938, a pedido de Henri Wallon (1879-1962) e do historiador Lucien Febvre (1878-1956), Lacan fez um balanço sombrio das violências psíquicas próprias da família burguesa em um verbete da Encyclopédie française.

Constatando que a psicanálise nasceu do declínio do patriarcado, passou a apelar para a revalorização da função simbólica da psicanálise no mundo cada vez mais ameaçado pelo fascismo.

Lacan sempre manteve fortes relações intelectuais fora do meio psicanalítico: com o linguista Roman Jakobson (1896-1982), com o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), com os filósofos Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) e Martin Heidegger (1889-1976), com os surrealistas, entre outros. Sob influência desses pensadores, adotou um questionamento profundo sobre o estatuto da verdade, do ser e do que significa considerar-se “sujeito” diante da complexidade do mundo contemporâneo. Da linguística, extraiu sua concepção de significante e de um inconsciente organizado como linguagem; da antropologia, deduziu a noção de simbólico, que utilizou na tópica SIR (simbólico, imaginário, real), assim como sua releitura universalista da interdição do incesto e do complexo de Édipo.

Durante dez anos, duas vezes por mês, Lacan realizou seu seminário público, aberto a quaisquer interessados, comentando sistematicamente todos os grandes textos do corpus freudiano e dando origem a uma nova corrente de pensamento: o lacanismo, cujos preceitos seriam discutidos não apenas por psicanalistas, mas por intelectuais de peso como Michel Foucault (1926-1984) e Gilles Deleuze (1925-1995).

Em seus seminários, atraiu muitos alunos, fascinados por seu ensino e desejosos de romper com o freudismo acadêmico da primeira geração francesa de psicanalistas. Começou então a ser reconhecido ao mesmo tempo como didata e como clínico, fundando duas escolas de psicanálise, que se dissolveram por divergências internas. Seu senso agudo da lógica da loucura, sua abordagem original do campo das psicoses e seu talento discursivo lhe valeram, ao lado de Françoise Dolto (1908-1988), um lugar especial aos olhos da jovem geração psiquiátrica e psicanalítica.

Em 1951, comprou uma casa de campo a cerca de cem quilômetros de Paris. Retirava-se para lá aos domingos, onde recebia seus pacientes e dava recepções.

Ao lado de sua segunda esposa, Sylvia Bataille, que era atriz, fazia teatro para os amigos, fantasiava-se, dançava, divertia-se e às vezes usava roupas extravagantes. Nessa casa colecionava um número considerável de livros que, ao longo dos anos, formaram uma imensa biblioteca que demonstrava o tamanho de sua paixão pelo trabalho intelectual. Em um cômodo que dava para o jardim, organizou um escritório repleto de objetos de arte. Nessa casa, pendurou o famoso quadro de Gustave Courbet (1819-1877) A origem do mundo.

Depois da morte de Lacan, em 1981, o lacanismo fragmentou-se numa multiplicidade de tendências, grupos, correntes e escolas, sendo implantado de maneiras diversas em muitos países, tendo o Brasil e a Argentina alguns de seus representantes mais férteis. Entre as contribuições mais importantes de Lacan para o campo da educação estão as noções de estádio do espelho e de eu ideal.

O estádio do espelho e o eu ideal

Segundo Lacan, nos primeiros meses de vida de uma criança, não há nada parecido a um eu, com suas funções de individualização e de síntese da experiência. Falta ao bebê o esquema mental de unidade do corpo próprio que lhe permite constituir esse corpo como totalidade, assim como distinguir interno e externo, individualidade e alteridade.

É só entre o sexto e o décimo oitavo mês de vida que tal esquema mental será desenvolvido. Para tanto, faz-se necessário o reconhecimento de si na imagem do espelho ou na identificação com a imagem de outro bebê. Ao reconhecer pela primeira vez sua imagem no espelho, a criança tem uma apreensão global e unificada de seu corpo. Assim, essa unidade do corpo será primeiramente visual e é condição fundamental para o desenvolvimento psíquico do bebê.

As imagens determinam a vida do indivíduo, representam um dispositivo fundamental de socialização e individuação, fazem parte da realidade psíquica. A partir delas, nasce a fantasia. Nesse processo, surge um conceito reelaborado por Lacan, a partir de Freud: o eu ideal, que representa a ideia que o indivíduo tem de si mesmo na forma arcaica e que delimitará suas identificações posteriores.

O eu arcaico, segundo Freud, expulsa o insatisfatório e internaliza as experiências satisfatórias. Para Freud, a constituição do eu se dá de dentro para fora; para Lacan, ao contrário, se dá de fora para dentro. Segundo o francês, para orientar-se no pensar, no sentir e no agir, para aprender a desejar, para ter um lugar na estrutura familiar e social, a criança precisa inicialmente raciocinar por analogia (no sentido da mimesis grega): imitar uma imagem na posição de tipo ideal, adotando, assim, a perspectiva de um Outro. Tais operações de imitação são importantes para a orientação das funções cognitivas e afetivas, e têm valor fundamental na constituição e no desenvolvimento subsequentes do eu em outros momentos da vida madura.

Na alienação do sujeito ao Outro, o infans (o “sem palavras”) se identifica e se experimenta. Começa então a circulação do desejo: fazer-se reconhecer, ser desejado e desejar o desejo do Outro. Imagem, palavra, alimento e cuidados são expressões dos rumos da pulsão, em suas diferentes modalidades: oral, anal, visual e vocal. Esse processo vai inscrevendo as representações no inconsciente, o que dará espaço ao processo de estruturação psíquica do sujeito sustentado pelo desejo do Outro.

Depois de reconhecer-se no espelho, as imagens dos irmãos, do pai, da mãe e de seus substitutos sociais farão parte da “imagem ideal”, necessária para a socialização. Esse dispositivo permitirá a entrada da criança numa trama sócio-simbólica, cujo núcleo é a família, mas que se compõe de outras figuras com função de autoridade. Entre esses personagens, o professor tem papel fundamental.

Dessa forma, a criança introjeta uma imagem que vem de fora (do espelho e dos humanos que a cercam). Por meio do olhar, da linguagem, do toque, da entonação da voz do Outro e de outros aspectos da comunicação inconsciente, se estabelece uma intensa troca (ou uma falha também imensa) entre a criança e a cultura.

Assim nasce o sujeito lacaniano, aquela estrutura com a função de ser o lugar em que o eu pode reconhecer-se, mas onde sua autonomia total se quebra diante da dependência do externo.

Outros conceitos desenvolvidos por Lacan:

Gozo e perversão

Para Lacan, o conceito de gozo implica a ideia de transgressão da lei: desafio, insubmissão ou escárnio. O gozo, portanto, participa da perversão, teorizada por Lacan como um dos componentes estruturais do funcionamento psíquico. Na perversão, o sujeito só encontra prazer quando a lei é transgredida.

Simbólico, Imaginário, Real

Essa tríade de conceitos, a partir de 1953, forma uma estrutura que, segundo Lacan, passaria a determinar e equilibrar as relações intrapsíquicas:
– O simbólico designa a ordem civilizatória a que o sujeito está ligado, como um lugar psíquico em que são reconhecidos os discursos produtores de “verdades”.
– O imaginário se define como um lugar no eu onde são acolhidos os fenômenos de representações ilusórias, utilizados para aplacar as vivências angustiantes advindas do real.
– O real designa qualquer fenômeno, aquilo que ainda não tem representações ou simbolizações no eu, que está no plano das vivências corporais ou emocionais e que, em geral, causa angústia ou sofrimento.

Significante

Esse termo foi introduzido por Ferdinand de Saussure (1857-1913) para designar a parte do signo linguístico que remete à representação psíquica do som (ou imagem acústica), em oposição à outra parte, ou significado, que remete ao conceito.

Retomado por Lacan como um conceito central em seu sistema de pensamento, o significante transformou-se, em psicanálise, no elemento do discurso (consciente ou inconsciente) que fará parte de uma série que, por sua vez, determinará os atos, as palavras e o destino do sujeito, à sua revelia e de acordo com uma nomeação que vem do simbólico.

FONTE: https://revistaeducacao.com.br/2017/05/07/as-principais-contribuicoes-de-jacques-lacan-para-educacao/


O que é identificação para Freud?



A identificação, segundo Freud, é “a mais antiga manifestação de uma ligação afetiva a uma outra pessoa”. Nosso Eu tem origem sempre num laço identificatório inconsciente com o Outro, a partir do qual serei capaz de me identificar e constituir um Eu, através desse Outro que está em relação comigo. É a partir dessa identificação primária que nossos primeiros investimentos no mundo serão feitos e nossa “noção” de Eu começa a se esboçar.

Se estamos vivos é porque fomos capazes de criar um vínculo afetivo com alguém e passamos a existir enquanto Eu através de e na relação entre o eu e esse outro. Nossas identificações apontam sobre como elementos vindos do outro nos afetam. Podemos introjetar (trazer para si), projetar (expulsar para fora de si) ou transformar em ideais traços, valores e pensamentos que encontramos no outro.

Em Psicologia das massas e análise do Eu, o Freud afirma que podemos nos identificar com um outro ao “querer ser como” ele, ao querer “tomar o lugar” do outro e substituí-lo em sua posição. Podemos ter sentimentos de ternura pelo outro, mas também podemos expressar o desejo de eliminar e aniquilar esse mesmo objeto. No canibalismo, o indivíduo incorpora somente os objetos que ele deseja e estima, numa espécie de “afeição devoradora” pelos inimigos. O canibal não devora aqueles de quem não pode gostar de algum modo. Interessante, não é?

Através das identificações, podemos ”querer-ter” algo característico de alguém ou ”ser-como” alguém. Algumas ocorrem pela adoção inconsciente de  traços ou sintomas da pessoa que amamos (pode ser até mesmo uma tosse ou um “tique”). É realmente como se nosso eu “adotasse” certas características do objeto amado, ou mesmo do objeto rival que tem proximidade afetiva com o objeto amado. Toda identificação, portanto, contém um fragmento de verdade sobre nossos afetos e laços com o outro.

Podemos fazer laço com o outro de três formas, segundo Freud: a segunda forma seria a identificação a um Ideal vindo desse Outro, e que agora nos servirá de guia interno (consciente e inconscientemente) para o estabelecimento de novos laços com nossos semelhantes; os outros. Valores, consciência moral e ética são exemplos desses possíveis ideais.

A terceira forma de identificação são as identificações que se dão por “contágio”, quando algo entre meu eu e o eu do outro coincide num determinado ponto. É quando eu posso ou quero me colocar na mesma situação que outrem, porque já vivencio o mesmo ou desejo vivenciá-lo. Por exemplo, quando estamos apaixonados ou carentes e assistimos a um filme romântico, ficamos temporariamente identificados por contágio com um dos personagens apaixonados. São identificações onde podemos dizer “eu também sinto isso” ou “eu também gostaria de sentir isso”.

Freud nos dá um exemplo: se uma garota receber uma carta de alguém que ama secretamente e essa carta, por algum motivo, lhe despertar ciúme, outras garotas a sua volta podem se contagiar com seu sofrimento e ciúme, porque elas também têm ou gostariam de ter um amor secreto.

Embora as identificações sejam constitutivas e muitas possam se tornar parte de um senso de identidade consciente, isso não significa que as identificações tenham o objetivo de se cristalizar em identidades. Pelo contrário; numa análise, vemos que quanto mais nossas identificações conscientes ou inconscientes se confundirem com identidades rígidas e fechadas, mais dificuldade teremos de ocupar lugares e posições psíquicas diversas diante de nossos conflitos e problemas, e sofreremos mais tentando lidar com os mesmos.

O conceito de identificação na psicanálise é complexo e com muitos desdobramentos.  Aqui falamos apenas de um recorte mais freudiano,  Lacan contribuiu ainda mais para pensar o conceito de identificação através da teoria do Estádio do espelho. 


 Patrícia Andrade

Psicanalista e psicóloga, aprimorada em Saúde Mental pelo Instituto A Casa e membro da rede Inconsciente Real

 

Bibliografia:
Kaufmann, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: O legado de Freud e Lacan. Editora ZAHAR – 1993.

Freud, S. Psicologia das massas e análise do Eu. Companhia das letras

FONTE: https://www.inconscientereal.com.br/o-que-e-identificacao-para-freud/

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Mecanismos de Defesa do Ego

 

Os mecanismos são modos de operação psíquica que o Ego utiliza/constrói para defender-se de perigos reais ou fictícios. Tem a função de proteger o ego contra elementos como a ansiedade e o desprazer, por exemplo, e são normais a todos os seres humanos, podendo ser utilizados também para defender de forma patológica o narcisismo do sujeito.

Ana Freud (1946/2006), que escreveu uma obra prima sobre o tema, teoriza que tais mecanismos existem pelo “medo” do ego de regredir ao estado inicial de fusão com o ID, na hipótese da falha do Superego na tarefa de reprimir os impulsos.

Os mecanismos de defesa são:

Repressão: Movimento que o Ego realiza para rebaixar conteúdos dolorosos (sejam ideias, afetos ou desejos) da consciência para o nível inconsciente;


Negação: Consiste na recusa da aceitação da realidade incômoda ao Ego;


Deslocamento: Consiste na transferência de um impulso para outro alvo considerado menos ameaçador;

Racionalização: É um processo pelo qual a pessoa elabora desculpas ou razões lógicas para tentar justificar comportamentos, pensamentos ou sentimentos inaceitáveis;

Compensação: Mecanismo de defesa utilizado para encobrir uma fraqueza através da atribuição de ênfase à outra característica mais desejada ou aceita;


Formação reativa: É um mecanismo que tende a inverter o impulso indesejado, substituindo-o pelo seu oposto. Exemplo: A pessoa “prega” a moralidade extremamente puritana, mas é totalmente entregue às perversões sexuais;

Projeção: Talvez este seja o mais famoso mecanismo de defesa, que é o responsável por atribuir aos outros conteúdos psíquicos que são da própria pessoa a outrem;
Isolamento: Consiste em separar um pensamento, recordação ou afeto de outros associados, em determinado evento/fato, de modo a minar ou fazer com que nenhuma reação emocional ocorra;
Anulação: Busca cancelar ou desfazer uma ação/sentimento indesejado de forma “simbólica” através de outra;

Introjeção: É o mecanismo responsável por integrar elementos de outro indivíduo a estrutura do Ego;

Regressão: É o mecanismo responsável pro fazer o ego retornar a um estágio anterior de desenvolvimento;


Fixação: Ocorre quando uma pessoa, em seu desenvolvimento, não progride de maneira normal, parando parcialmente em uma fase do desenvolvimento;

Sublimação: É o mecanismo responsável por redirecionar a energia de um impulso para outra atividade socialmente mais aceitável ou desejável;

Identificação: É o mecanismo responsável por aumentar o valor do ego através da aquisição de características de um sujeito referência (admirado).

Referências

Freud, A (2006). O Ego e os mecanismos de defesa.Porto Alegre: Artmed.

Freud, S. (1996). O Ego e o Id. Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. XIX: O Ego, o Id e outros trabalhos (J. Salomão, Trad.). p. 164-167. Rio de Janeiro: Imago.

Hall, C. S., & Lindzey, G. (1971). Teorias da personalidade (L. Bretones, Trad.). São Paulo: Herder.

https://cynthiaolivei.wordpress.com/2017/01/16/mecanismos-de-defesa-do-ego/





Os Mecanismos de Defesa do Ego



Mecanismos de Defesa do Ego


“A dificuldade em lidar com o arquétipo da Sombra é que, em vez de reconhecer nossas próprias ‘diabruras’ e deficiências, preferimos preservar nossa imagem idealizada de bonzinhos. Assim, para lidar com a Sombra é preciso, em primeiro lugar, levarmos seriamente em conta sua existência e aceitá-la. Depois, estaremos informados a respeito de suas intenções e qualidades, pois, no dizer de Jung, uma pessoa não se ilumina simplesmente imaginando figuras de luz, mas iluminando a escuridão. E, para isso, é necessário que façamos com nossa Sombra várias negociações, muitas vezes longas e difíceis.

Vários são os recursos ou expedientes que o ego utiliza para não se confrontar com a Sombra. São os mecanismos de defesa inconscientes, como a ‘Projeção’, a ‘Negação’ e a ‘Repressão’, que atuam mantendo os conteúdos da Sombra dissociados da consciência.

- Projeção: extremamente atraente para o ego. Por meio dela, ‘descobrimos’ onde está o mal que nos aflige: fora, no outro! É sempre o chefe, a namorada, o pai ou a mãe, o sistema, a economia ou o governo o responsável por nossos males.

- Negação: mecanismo mais arcaico, sem nenhuma elaboração. É usado, por exemplo, pela criança pequena: basta fechar os olhos para afastar o bicho papão ou qualquer outro monstro ou fantasma ameaçador, faz parecer que a ameaça não mais existe. Simplesmente nega-se a existência do problema.

- Repressão: funciona como um porteiro que só deixa passar convidados portadores de senha. Esse mecanismo de defesa expulsa da consciência aquilo que convém, mantendo os conteúdos excluídos no inconsciente.

Após várias tentativas de excluir os conteúdos da ‘Sombra’, tais estratégias defensivas podem começar a falhar, e a pessoa vê-se obrigada a perceber que o custo para mantê-los afastados da consciência é elevado. Surgem, então, sentimentos de culpa, ansiedade ou depressão, além da manifestação de uma série de sintomas corporais.

Ao ser confrontada, a Sombra diminui seu poder e seu tamanho e pode tornar-se uma força positiva, um aliado. Ou seja, nossa Sombra pode tornar-se um bom inimigo, aquele que nos desperta para o nosso lado obscuro, possibilitando-nos aprender com nossos erros. Como disse Coethe, nossos amigos nos mostram o que podemos fazer, nossos inimigos nos ensinam o que devemos fazer”. (Grinberg, 2003: 147-8-50).

“Reconcilia-te com teu adversário enquanto estiveres a caminho” (Cristo Jesus).

Quem é nosso adversário, inimigo número um que devemos buscar a reconciliação? Senão “nós mesmos”. Assim como, nosso principal aliado, “Buscai o Reino dos Céus e todo o resto lhe será dado por acréscimo. O Reino dos Céus está dentro de vós” (Cristo Jesus).

João Januário Martins – psicólogo clínico
Fonte:
https://www.facebook.com/JungPsicoTranspessoal/posts/mecanismos-de-defesa-do-egoa-dificuldade-em-lidar-com-o-arqu%C3%A9tipo-da-sombra-%C3%A9-qu/836656099717506/?locale=pt_BR

A psicopedagogia no Brasil: Novas Perspectivas

Palestrante: Pp. Jossandra Barbosa Presidente do Sindicato dos Psicopedagogos do Brasil - SINDPSICOPP-BR Historiadora Psicopedagoga Neuropsi...