quinta-feira, 11 de maio de 2023

LUCIEN LÉVY-BRUHL: A MENTALIDADE PRIMITIVA



Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939)

«É por isso que a mentalidade dos primitivos tanto pode ser pré-lógica como mística. Temos aí antes dois aspectos de uma mesma propriedade fundamental do que dois aspectos distintos. Essa mentalidade será chamada mística se se considerar mais especialmente o conteúdo das representações; pré-lógica, se se olhar antes para as ligações. Pré-lógica não deve também fazer supor que esta mentalidade constitui uma espécie de estádio inferior, no tempo, ao aparecimento do pensamento lógico. Existiram alguma vez seres humanos ou pré-humanos cujas representações colectivas não tenham obedecido a leis lógicas? Ignoramo-lo. Em todo o caso, é muito pouco verossímil. Pelo menos, a mentalidade das sociedades de tipo inferior, a que chamo pré-lógica à falta de melhor nome, não apresenta de modo algum esse carácter. Não é antilógica; também não é alógica. Chamando-lhe pré-lógica, quero somente dizer que ela não se sujeita, antes de tudo o mais, a abster-se de contradição. Primeiro obedece à lei da participação. Assim orientada, não se compraz gratuitamente no contraditório (o que a tornaria constantemente absurda para nós), mas também não pensa em evitá-lo. Na maioria das vezes, é indiferente ao princípio de contradição. O que significa que é difícil de acompanhar». (Lucien Lévy-Brühl, 1910)


A globalização e a ideologia neoliberal que a molda voltam a colocar na ordem do dia os temas clássicos da Filosofia Primitiva, cuja tarefa é, como vimos noutro texto, estudar as formas de pensamento primitivo na sua relação com o contexto social. 

 Gaston Bouthoul formulou o princípio de que existem estruturas mentais que correspondem estritamente às estruturas sociais, definindo assim a mentalidade do ponto de vista da sociedade: «uma sociedade é essencialmente um grupo de pessoas de mentalidade análoga», e cada uma das mentalidades é «uma condensação interiorizada da vida social». 

Este princípio pode ser lido tanto do ponto de vista da sociologia de Durkheim que destaca mais a integração do que o conflito, como do ponto de vista marxista, cujo conceito de ideologia implica uma sociedade de classes em conflito. 

Ora, de todas as mentalidades, a mais estudada foi aquela a que Lévy-Bruhl chamou mentalidade primitiva. 

Nas suas primeiras obras, Lévy-Bruhl atribuiu à mentalidade primitiva duas características básicas: mística, no que se refere ao conteúdo das suas representações, e pré-lógica, no que se refere às ligações entre essas representações. 

Por um lado, a mentalidade primitiva é mística, não no sentido do misticismo religioso, mas no sentido da crença em forças, influências ou ações imperceptíveis aos sentidos e, no entanto, reais: quer dizer que os povos primitivos se movem numa realidade mística, onde todas as coisas possuem poderes ocultos. 

E, por outro lado, a mentalidade primitiva é pré-lógica, não no sentido de ser anterior no tempo à aparição do pensamento lógico, ou no sentido de ser antilógica ou alógica, mas no sentido de não se sujeitar a abster-se da contradição: quer dizer que a mentalidade das sociedades inferiores obedece menos ao princípio de identidade do que a uma lei de participação, em virtude da qual - nas suas representações colectivas - os objectos, os seres, os fenómenos podem ser simultaneamente eles próprios e outra coisa diferente deles mesmos. 

Assim, por exemplo, os Bororos do Brasil afirmam que são araras. A lei da participação permite aos primitivos explicar as conexões que estabelecem entre o retrato e o seu modelo, a sombra e a pessoa, o nome e a coisa; o costume da couvade; a importância atribuída aos presságios, à adivinhação e aos símbolos; a representação que fazem de si próprios, com o sentimento da existência individual relegado a segundo plano pelo conjunto de pertinências que os ligam ao meio e, especialmente, ao grupo; a ligação entre o próprio grupo e uma porção de território, o seu centro totémico local; enfim, a natureza dos sistemas de classificação e das pré-ligações que estabelecem entre as suas representações. 

O duplo carácter da mentalidade primitiva ajuda Lévy-Bruhl a explicar a concepção de causalidade que a caracteriza: «A causalidade que ela concebe é de um tipo diferente daquele que nos é familiar». 

As sociedades primitivas ignoram as cadeias de causas intermediárias e concebem apenas uma «causalidade mística e imediata», que implica uma representação completamente distinta do tempo e do espaço. 

Para os primitivos, não há fenómenos naturais, no sentido que damos a este termo. Assim, por exemplo, a morte resulta sempre de práticas de magia, mesmo quando se trata da morte de um homem idoso e doente. Imaginemos a seguinte cena: um búfalo investe contra um homem e mata-o. Segundo Lévy-Bruhl, o homem primitivo prefere a explicação mística à explicação objectiva natural: a morte deste homem será assim explicada pela bruxaria. 

Haverá aqui uma contradição? Será o homem primitivo indiferente à contradição? Evans-Pritchard considera que não há aqui nenhuma contradição, alegando que os primitivos fazem uma análise mais aguda da situação: «Eles estão perfeitamente cientes de que foi um búfalo que matou o homem, mas sustentam que isto não teria acontecido se não tivesse havido bruxaria. Se não fosse a bruxaria, o homem não teria sido morto pelo búfalo, ou teria sido outro homem que não aquele ou teria sido outro búfalo e outro espaço e outro tempo e não aqueles: por que aconteceria como aconteceu se não fosse a bruxaria? 

Eles estão a perguntar por que - como nós diríamos - duas cadeias causais de eventos independentes se cruzam, levando um determinado homem e um determinado búfalo ao mesmo lugar e no mesmo tempo». 

Nesta perspectiva mais subtil, que Evans-Pritchard (1937) explanou na sua obra Witchcraft, Oracles and Magic among the Azande, as duas explicações - a natural e a mística - são complementares: os primitivos salientam mais a causa mística do que a causa natural, porque ela permite a vingança contra quem enfeitiçou o homem. A subtileza desta análise não deve iludir a incapacidade dos antropólogos para solucionar as questões relativas ao pensamento primitivo.

Lévy-Bruhl estudou - de 1910 a 1938 - o sistema de conhecimentos que correspondem à sociedade primitiva, sem pretender procurar a origem do conhecimento filosófico e do conhecimento científico das sociedades civilizadas. 

O conhecimento perceptivo do mundo exterior, bem como o conhecimento do Eu, do Outro e do Nós, é, entre os povos primitivos, completamente diferente dos nossos conhecimentos. 

Convém deixar bem evidenciado que Lévy-Bruhl era descontinuísta e anti-evolucionista: os povos primitivos vivem num mundo físico e num mundo social que não pode ser comparado ao mundo dos povos civilizados. 

As leis da lógica formal são substituídas - nas sociedades primitivas - pela lei da participação mística. Ora, esta última baseia-se, como demonstrou Lévy-Bruhl em 1931, na categoria afectiva do sobrenatural. 

As representações colectivas dos primitivos não são puramente intelectuais; são, antes de tudo, «estados complexos em que os elementos emocionais e motores constituem partes integrantes das representações». Um xamã esquimó disse a Knut Rasmussen que o seu grupo não tinha crenças, mas medo do que via em seu redor e das coisas invisíveis que o cercava. 

Lévy-Bruhl utiliza o termo categoria não no sentido aristotélico ou kantiano, mas como princípio de unidade afectiva no espírito que explica desde logo a participação, em virtude da qual o simbolismo - por exemplo - não é simples semelhança, mas consubstancialidade com o ser ou o objecto simbolizado. Mas esta consubstancialidade é, para os primitivos, de ordem afectiva ou emotiva, como se evidencia nas suas cerimónias e danças que realizam, através de uma espécie de comunhão ou de fusão mística com o antepassado mítico ou totémico, uma participação, isto é, uma união afectiva total. 

Em 1935, Lévy-Bruhl explica a mentalidade pré-lógica dos primitivos - a sua indiferença em relação à contradição - pelo facto desta atitude estar ligada à orientação mística do seu espírito e às suas fracas tendências conceptuais: os primitivos formam conceitos, mas estes conceitos, aliás menos numerosos e ricos do que os nossos, não são sistematizados por eles. 

Em 1938, Lévy-Bruhl destaca a importância da participação: «A mentalidade primitiva, misticamente orientada, vê participações em todo o lado. Ignorando o mecanismo das leis da natureza, ainda que, na prática, saiba regular suficientemente bem a sua actividade por este mecanismo, ela concebe, ou sente a maior parte das vezes, as relações mútuas dos seres vivos como participações.

Com mais forte razão, as relações entre os seres do mundo exterior e os do mundo invisível, a interacção constante da natureza e do sobrenatural, também são "sentidas" como participações, mais ou menos claramente representadas. 

É, pois, razoável dizer que estes espíritos, mais ainda do que os nossos, se movem "através de uma floresta de símbolos", segundo a célebre expressão de Baudelaire. Símbolos que lhes são próprios. Não obra do entendimento, como os nossos, mas já existindo, de certo modo, antes de serem apreendidos, nas participações que se objectivam através deles». 

Os símbolos não são expressões, mas principalmente veículos da participação, sendo esta entendida como uma forma de agir e ser agido. Suponho que Victor Turner (1967) encontrou aqui inspiração quando deu o título The Forest of Symbols ao seu estudo sobre o ritual ndembu, um povo africano do noroeste da Zâmbia, antiga Rodésia setentrional, ao sul da África central.


Em 1920, Lévy-Bruhl já tinha renegado expressamente a tese do pré-logismo: «Vi ser-me atribuída uma doutrina, chamada "pré-logismo", segundo a qual haveria duas espécies de espíritos humanos, uns lógicos, como os nossos, e outros, os dos primitivos, pré-lógicos, isto é, destituídos dos princípios directores do pensamento lógico e obedecendo a leis diferentes; e essas duas mentalidades seriam exclusivas uma da outra... 
Não julguei necessário defender-me contra uma refutação que afirmava um absurdo palpável e não dizia realmente respeito aos meus trabalhos». 

Mas é nos Carnets Posthumes (1949) que Lévy-Bruhl abandona de vez a tese do pré-logismo e a própria noção de pensamento pré-lógico: «O que há de mais positivo na minha ideia do carácter pré-lógico provém do carácter místico». Lévy-Bruhl é assim levado a dar especial destaque ao carácter místico do pensamento primitivo: «O essencial de qualquer experiência mística é o sentimento (acompanhado por uma emoção sui generis) da presença e, muitas vezes, da acção de um poder invisível, o sentimento de um contacto, em geral imprevisto, com uma realidade outra que a dada pelo meio ambiente». Ora, segundo Lévy-Bruhl, esta mentalidade mística é «mais acentuada e mais facilmente observável entre os primitivos do que nas nossas sociedades», embora esteja «presente em todo o espírito humano». 

O anti-evolucionismo de Lévy-Bruhl leva-o a afirmar sem rodeios e sem hesitações que «a estrutura lógica do espírito é a mesma em todas as sociedades humanas», o que implica a ideia da unidade do género humano. De certo modo, a oposição entre a experiência - construída ou imediata - dos primitivos e a dos civilizados é aqui substancialmente mitigada: Lévy-Bruhl mostra-se assim sensível à competição de várias formas de conhecimento no mesmo quadro social e à variação das acentuações das formas no seio da mesma estrutura de conhecimento. 

Os critérios da experiência imediata ou construída são diferentes nestes dois tipos gerais de sociedades, as primitivas e as civilizadas. A experiência dos primitivos admite diferentes graus de misticidade e de racionalidade, o que permite graduar o carácter da sua lógica, de modo a fazer frente à crítica que é dirigida à teoria de Lévy-Bruhl: a de não ter levado em conta as diferenças internas, tanto as nossas como as dos primitivos. 

Além disso, a sua experiência imediata é mais rica do que a nossa: a nossa experiência imediata está muito mais sujeita às coacções das conceptualizações racionais do que a dos primitivos. Até mesmo a personalidade - a individualidade - dos primitivos é, graças às dependências místicas, muito mais forte, mas muito menos diferenciada do que a nossa: o que significa que a pessoa humana não permanece idêntica nas diferentes estruturas sociais, como confirmaram mais tarde Ralph Linton e Abram Kardiner. 

Ao opor a mentalidade primitiva à mentalidade moderna, Lévy-Bruhl procurou mostrar que a primeira é explicada pelo estado de espírito místico: os homens primitivos forjam conceitos, tal como nós, mas - ao contrário de nós - não os usam como instrumentos de um pensamento discursivo: «A discussão de Lévy-Bruhl acerca da lei da participação mística é talvez a mais valiosa e original das partes da sua obra. Ele foi um dos primeiros, se não o primeiro, a salientar que as ideias primitivas, que nos parecem tão estranhas, às vezes chegando mesmo a parecer idiotas, quando consideradas como factos isolados, são plenas de significação, desde que vistas como segmentos de padrões de ideias e de comportamento, tendo cada parte uma relação coerente com as demais partes. 

Ele reconheceu que os valores formam sistemas tão coerentes como as construções lógicas do intelecto e que existe uma lógica de sentimentos assim como existe uma da razão, embora aquela esteja baseada num princípio diferente.

 A sua análise nada tem a ver com as historietas fantasiosas que comentamos anteriormente, porque ele não tenta explicar a magia e a religião primitivas por uma teoria que procura mostrar como teriam elas surgido, ou qual a sua causa e a sua origem. Ele aceita-as como consumadas, e procura apenas mostrar a sua estrutura e o modo pelo qual elas constituem uma prova da existência de uma mentalidade distinta, comum a todas as sociedades de um determinado tipo» (Evans-Pritchard). 

O que hoje podemos dizer é que existem diferentes lógicas correspondendo aos diferentes tipos de sociedades - ou mesmo coexistindo no seio de uma única sociedade. Acho que as críticas feitas à teoria da mentalidade primitiva de Lévy-Bruhl - incluindo a de Marcel Mauss e a de Henri Bergson - foram extremamente injustas. 

Lévy-Bruhl recusou fazer parte da Escola Sociológica de Durkheim, apesar de partilhar com ela a ideia de que a mentalidade do indivíduo deriva das representações colectivas da sua sociedade: ele permaneceu um filósofo, puro e simples, mais interessado pelos sistemas primitivos de pensamento do que pelas instituições sociais primitivas. 

Para Lévy-Bruhl, podemos começar o estudo da vida social tanto pela análise das maneiras de pensar como pela análise das formas reais de comportamento: a questão da lógica - ou das duas lógicas, a do conceito e a do sentimento - atravessa todos os seus livros, o que despertou a animosidade dos antropólogos ingleses e americanos que, sob influência do fetiche positivista dos estudos empíricos, recusaram precipitadamente a sua teoria da mentalidade primitiva, pré-lógica e mística. 

(Robert H. Lowie ignora-o na sua opus magnum - Primitive Religion, 1952, destacando apenas a teoria do animismo de E. B. Tylor, a teoria da magia de J. G. Frazer e a teoria colectivista de E. Durkheim.) Mas, como vimos, Lévy-Bruhl nunca afirmou que os homens primitivos eram incapazes de pensar coerentemente: eles são inteligentes e pensam de maneira coerente e lógica, mas fazem-no usando categorias diferentes das nossas. O que está em questão na obra de Lévy-Bruhl não é a diferença biológica ou psicológica entre primitivos e civilizados, mas sim a diferença social. 

O único antropólogo que se atreveu a defender Lévy-Bruhl foi Evans-Pritchard, que, traduzindo-o numa linguagem acessível ao espírito pragmatista anglófono, o confrontou com a teoria dos resíduos e das derivações de Vilfredo Pareto.

Com isto não pretendo poupar a teoria de Lévy-Bruhl a uma reformulação aprofundada, mas simplesmente reconhecer o seu mérito lá onde os seus críticos apontaram as armas: a definição da polaridade. 

Uma forma diplomática de dizer que a abolição por decreto da mentalidade primitiva resulta do seu regresso a todos os quadros sociais das sociedades modernas: recusa-se a mentalidade primitiva para ocultar o primitivismo do homem moderno, como se todos os homens fossem iguais nas suas capacidades intelectuais. 

Hoje quem queira estudar a mentalidade primitiva não precisa sair da sua própria sociedade e deslocar-se até aos trópicos, porque os primitivos habitam a sua própria sociedade. 

Uma das tarefas prioritárias da Filosofia Primitiva é precisamente pensar este regresso do primitivo que se verifica nas sociedades supostamente mais desenvolvidas do mundo. 

O regresso do primitivo tal como o concebo não se identifica com a redescoberta do sobrenatural exposta por Peter I. Berger: a redescoberta do sobrenatural constitui uma das peças do regresso do primitivo, cujo movimento global reintroduz nos espaços centrais da sociedade civilizada a figura do pensamento mágico.

 Contudo, esta reintrodução do pensamento mágico nos quadros sociais das sociedades modernas implica um fenómeno regressivo, a própria animalização do homem, o que não sucedia nas sociedades primitivas colonizadas pelos europeus - muito mais humanas do que as nossas sociedades. 

Quando isto acontece, a civilização e, sobretudo, a cultura superior, começam a entrar numa fase de colapso. Hoje, no Ocidente, a forma cultural dominante é a mentalidade primitiva que cresce e invade todos os seus tecidos, como se fosse um cancro. Uma sociedade metabolicamente reduzida é necessariamente uma sociedade cancerosa. 


Obras de Lucien Lévy-Bruhl, nenhuma das quais está traduzida em português, tanto quanto sei - as minhas edições são todas da PUF:


1910: As Funções Mentais das Sociedades Inferiores.
1922: A Mentalidade Primitiva.
1927: A Alma Primitiva.
1931: O Sobrenatural e a Natureza na Mentalidade Primitiva.
1935: A Mitologia Primitiva.
1938: A Experiência Mística e os Símbolos para os Primitivos.
1949: Os Cadernos de L. Lévy-Bruhl.  


J Francisco Saraiva de Sousa

Fonte:
http://cyberdemocracia.blogspot.com/2011/09/lucien-levy-bruhl-mentalidade-primitiva.html

Quem foi Émile Durkheim

 

Émile Durkheim foi um sociólogo francês do século XIX que contribuiu com diferentes ideias, ideologias e pesquisas das áreas sociais. Além de sociólogo, também era psicólogo e filósofo.



O pensador é um dos mais importantes da história, pois seus conceitos e pesquisas reverberam até os dias atuais.

Junto com Max Weber e Karl Marx, formam a tríade dos pensadores clássicos.

Um dos maiores feitos de Émile Durkheim foi ter definido o método sociológico de pesquisa, o que tornou essa área de estudos uma ciência independente das outras.  

A partir dessas definições, os estudos sociológicos precisavam passar por métodos específicos de estudo e análise.

O intuito era diminuir as interferências de outras áreas na sociologia, entendendo-a como autônoma.

Também foi o criador da Teoria dos Fatos Sociais, (...)

Essa teoria afirma que fatos gerais que marcam a sociedade de alguma forma acabam sendo mais influentes do que os fatos e pensamentos individuais de cada pessoa. 

Principais livros de Émile Durkheim

Émile Durkheim foi um estudioso, pesquisador e professor por toda a sua vida e, por isso, contribuiu com inúmeros livros da área de sociologia.

Suas obras são referências para novos estudos ainda nos dias de hoje.

Veja os nomes dos principais livros do sociólogo para pesquisar:

  • A Divisão do Trabalho Social (1893) 
  • A Educação Moral (1925 – publicação póstuma)
  • As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912) 
  • As Regras do Método Sociológico (1895) 
  • Educação e Sociologia (1922 – publicação póstuma) 
  • Elementos de Sociologia (1889) 
  • O Socialismo (1928 – publicação póstuma)
  • O Suicídio (1897) 
  • Sociologia e Filosofia (1924 – publicação póstuma) 
(...)

 Durkheim contribuiu de diversas maneiras para os estudos da sociedade e, a partir de suas obras, é possível citar 5 conceitos importantes que influenciam as pesquisas sociais até hoje.

1. Fato social

O conceito mais importante e mais frequente nas provas, a teoria do Fato Social, refere-se ao entendimento da sociedade como uma realidade objetiva, que pode ser estudada assim como as outras áreas.

Para Durkheim, o fato social conta com três elementos essenciais que o tornam factuais: generalidade, a externalidade e a coercitividade.

Em sua teoria, o sociólogo afirma que os fatos sociais são externos ao indivíduo e existem independente de nossa consciência sobre eles.

Não são imutáveis, mas, para serem alterados, precisam de um grande esforço.

O ser humano começa a ter contato com esses fatos desde seu nascimento e internaliza muitos deles. Esse processo foi chamado de “princípio da socialização”.

Com isso, Durkheim afirma que os fatos sociais influenciam a maneira de pensar de um indivíduo, muito mais do que o oposto.  

2. Instituição social e anomia

Outro estudo importante do sociólogo foi sobre a instituição social e seu enfraquecimento (anomia).

Para ele, a instituição social é formada por um conjunto de regras que visam conservar uma organização de grupo e, pelo desejo de conservação, é necessariamente tradicionalista.

A anomia, por sua vez, é a definição de um momento em que as regras deixam de ser claras e, com isso, a instituição social perde seu limite.

O resultado é uma sociedade com indivíduos afastados entre si socialmente falando, sem consciência coletiva.  

3. Consciência individual e coletiva

A consciência coletiva é a ideia de que todos os que convivem em uma mesma sociedade “criam” maneiras de agir que são comuns a todos.

Isso acontece tanto pelos fatos sociais quanto pela ideia de instituição social, que vimos anteriormente.

Por sua vez, a consciência individual refere-se ao âmbito pessoal, as vontades, gostos e pensamentos de cada um, vistos como únicos.

Um exemplo dado por muitos pesquisadores é o da vestimenta: a sociedade indica que temos que andar vestidos, mas cada um escolhe com que roupa deseja se vestir.  

4. Solidariedade orgânica e mecânica

O conceito da coesão social é a base para essas ideias e diz que a sociedade está baseada no consenso existente entre os indivíduos.

Segundo ele, sociedades arcaicas eram definidas por uma solidariedade mecânica, em que os indivíduos compartilhavam as mesmas crenças, valores e formas de trabalho, por isso, criaram uma sociedade coesa.

Depois, surgiu a solidariedade orgânica, impulsionada pela divisão do trabalho.

Assim, os indivíduos compartilham os valores individuais, mas as relações de trabalho mudaram, sendo cada vez mais individuais e criando relações de poder entre as pessoas. Mesmo assim, existe a coesão por dependência.

Isso se aplica desde as relações pessoais até as definições das instituições sociais, cultura e ideologias.  

5. Suicídio

Sendo Durkheim também psicólogo, um conceito criado por ele e utilizado até hoje em algumas vertentes do estudo da mente é o de suicídio.

De acordo com o pesquisador, existem diferentes tipos de suicídio, que também se relacionam com suas outras teorias.

  • suicídio egoísta: ego pessoal sobrepõe-se ao ego social, o indivíduo não enxerga motivos para continuar vivo nem em sua vida pessoal nem na sociedade em que vive;
  • suicídio altruísta: ego social maior que o individual, a pessoa enxerga os valores da sociedade como maiores que si próprio e escolhe encerrar a vida em “benefício” da sociedade. Pilotos kamikaze e homens-bomba são exemplos;
  • suicídio anômico: acontece em momentos de desordem e caos (anomia), que levam ao desespero os mais afetados. Assim, deixam de ver sentido na vida ou têm sua saúde mental afetada pelos acontecimentos. Momentos de crise e de guerras são exemplos.

Os conceitos de Émile Durkheim reverberam até os dias de hoje e, por isso, é essencial entendê-los ...

FONTE:

https://ead.faesa.br/blog/emile-durkheim-sociologia#:~:text=Em%20sua%20teoria%2C%20o%20soci%C3%B3logo,nascimento%20e%20internaliza%20muitos%20deles.

O que é psicologia social e como trabalhar na área?


A Psicologia é uma ciência que estuda o ser humano, seus comportamentos e processos mentais. Por envolver um amplo campo de análise, ela se divide em alguns ramos. A Psicologia Social é um, juntamente das Psicologias Clínica, Hospitalar, Escolar, Forense, Esportiva, Organizacional, entre outras.

A área é altamente relevante, pois o trabalho do profissional contribui para a construção de uma coletividade de olhar mais empático e acolhedor. É a Psicologia Social que nos dá respostas para perguntas do tipo: “Por que agimos de formas distintas quando sozinhos e quando em grupo?”.

O que é Psicologia Social?

A Psicologia Social estuda a relação do indivíduo com a sociedade. Ela observa comportamentos (ou suas intenções), nos momentos em que estamos cercados de outras pessoas. Uma de suas principais ideologias é que nosso comportamento é diferente quando estamos sozinhos e quando estamos em comunidade.

Para a Psicologia Social, dependendo do poder do membro de um grupo, ele pode levar outras pessoas a cometerem atos negativos ou positivos. É comum existir isso em equipes de empresas. Porém, também podemos encontrar exemplos na História, com ditadores que conseguiram convencer milhares de pessoas a cometerem atos cruéis. O psicólogo social estuda as melhores maneiras de intervir em casos como esses.

Outro assunto da Psicologia Social é o “comportamento de manada”, que leva, por exemplo, pessoas a estocarem comida e papel higiênico em um contexto de quarentena e pandemia. Por fim, outra de sua função é examinar quais regras funcionam melhor a cada grupo, de modo que o convívio entre todos seja mais pacífico.

Qual é a diferença entre Psicologia Social e Serviço Social?

É comum a confusão entre as duas áreas, contudo não são a mesma coisa. Para começar, o psicólogo social se formou em Psicologia, enquanto o assistente social no curso de Serviço Social.

O grande foco do psicólogo é intervir no comportamento de grupos, de modo a promover melhores relações e a contribuir para a melhoria da saúde mental de todos. O assistente social, por sua vez, tem como grande objetivo garantir os direitos humanos das pessoas menos favorecidas. 

De qualquer forma, é de praxe os dois profissionais trabalharem juntos. Eles podem intervir em grupos marginalizados e em ONGs, por exemplo, cada um contribuindo com suas competências.

Em que tipo de trabalho a Psicologia Social é necessária?

A Psicologia Social tem muitas utilidades e várias possibilidades de atuação. Contudo, para garantir mais sucesso após a graduação, é importante a plena dedicação aos estágios. Tenha em mente que, além de eles proporcionarem conhecimentos práticos, muitas empresas costumam exigir a experiência prévia antes da contratação efetiva. 

Agora, confira alguns dos trabalhos nos quais essa profissão é necessária!

Na exclusão social

O trabalho pode ser feito em qualquer grupo vítima de exclusão social: 

  • presidiários de bom comportamento;
  • mães adolescentes de baixa renda social.
  • adictos de drogas;
  • pessoas em situação de rua.

Nesses casos, é comum a terapia em grupo, em que os membros falam sobre seus problemas e recebem apoio e orientação. Um dos objetivos é fazer com que essas pessoas adquiram habilidades comportamentais de modo que sejam inseridas novamente na sociedade.

Nas lutas de classe

Lutas contra grupos historicamente oprimidos, como as mulheres e os negros, também fazem parte do objeto de estudo do psicólogo social. Na prática, ele pode atuar em pesquisas e em intervenções. Combate ao feminicídio e ao preconceito racial são alguns temas comuns.

Em grupos diversos

Outro papel do profissional é ajudar pessoas a lidarem melhor com os papéis sociais atribuídos a elas. Por exemplo, cada cultura tem certas expectativas sobre a função de uma mãe, de um pai, de um policial, de um professor etc. Tais expectativas geram em nós a obrigação de cumpri-las. O psicólogo social nos ajuda a entender isso e a encarar tudo de forma mais saudável. 

No marketing

Campanhas de marketing também contam com a ajuda do psicólogo social. Ele estuda o comportamento do consumidor e assessora marcas e meios de comunicação a realizarem propagandas atrativas, de acordo com o perfil do público. 

Por exemplo, o profissional pode auxiliar em uma campanha do Governo, cujo foco seja a conscientização da importância de não estocar papel higiênico durante uma pandemia. Para isso, o profissional precisa ter conhecimento sobre a cultura e sua forma de pensar, de modo a encontrar bons argumentos e garantir que a mensagem seja dada sem reações emocionais adversas.

Em empresas

Quando trabalha em empresas, o psicólogo social ajuda a parte gestora a instituir práticas de socialização aos novos colaboradores e a gerir conflitos. Outra possibilidade é cuidar do clima organizacional, evitando que determinadas posturas de grupos prejudiquem a motivação e a produtividade no ambiente de trabalho. Ou seja, ele também age antecipadamente e não somente após o surgimento de um problema.

Quais são as vantagens de atuar na área?

Com todas essas possibilidades de atuação, já deu para perceber que trabalhar com Psicologia Social é muito interessante, concorda? Além disso, o dia a dia de trabalho é recompensador. O fato de contribuir para a criação de um mundo mais empático e a possibilidade de aumentar a qualidade de vida da sociedade são grandes motivadores para quem deseja atuar como psicólogo social.

Leia mais em:

https://blog.unopar.com.br/psicologia-social/#:~:text=A%20Psicologia%20Social%20estuda%20a,e%20quando%20estamos%20em%20comunidade.


sexta-feira, 5 de maio de 2023

O Estádio do Espelho


"O espelho, são muitos."
 (Espelho.Guimarães Rosa)


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 O "eu" é um produto de uma identificação com o outro. O espelho é tudo aquilo que é capaz de devolver para você a sua imagem. (...) é essa superfície que possibilite que você se reconheça - é o grupo, é o olhar do outro, toda superfície que te devolve, que apresenta é o espelho.

Sugestões de leitura conectando-se à literatura em Psicanálise: (O ESPELHO/Machado de Assis).

terça-feira, 25 de abril de 2023

As principais contribuições de Jacques Lacan para a educação



Para Jacques Lacan, o bebê só distinguirá o que lhe é interno ou externo ao reconhecer-se, ou ao Outro, na visão 

Na Paris dos anos 1920, o psiquiatra e psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) frequentava livrarias e se reunia com os surrealistas, assistia com entusiasmo à leitura pública de Ulisses, de James Joyce (1882-1941), ligando-se a escritores, poetas, artistas plásticos, filósofos. Formado em medicina, Lacan orientou-se desde o começo de sua vida profissional para a psiquiatria e a psicanálise. Mas, por seus interesses e suas práticas mais abrangentes que os da psicanálise da primeira geração, nunca foi reconhecido pela Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), para a qual apresentava trabalhos que não eram levados em conta.

Seu anticonformismo parecia causar irritação em seus pares na psicanálise de então. No entanto, fora dos círculos psicanalíticos, era considerado brilhante intelectual. Foi o único, entre os grandes intérpretes da história do freudismo, a dar à obra freudiana uma estrutura filosófica e a tirá-la de suas bases biológicas, sem com isso cair no “espiritualismo”.

A partir de 1936, Lacan iniciou-se na filosofia hegeliana, quando assistia ao seminário de Alexandre Kojève (1902-1968). Frequenta­va sedes de revistas culturais e participava de reuniões no Collège de Sociologie, onde conviveu com diversos intelectuais, entre os quais o escritor Georges Bataille (1897-1962), cuja esposa viria a ser a segunda mulher de Lacan. Desses anos de grande ebulição intelectual e teórica tirou a certeza de que a obra freudiana devia ser relida “ao pé da letra” e à luz da tradição filosófica alemã.

Em 1938, a pedido de Henri Wallon (1879-1962) e do historiador Lucien Febvre (1878-1956), Lacan fez um balanço sombrio das violências psíquicas próprias da família burguesa em um verbete da Encyclopédie française.

Constatando que a psicanálise nasceu do declínio do patriarcado, passou a apelar para a revalorização da função simbólica da psicanálise no mundo cada vez mais ameaçado pelo fascismo.

Lacan sempre manteve fortes relações intelectuais fora do meio psicanalítico: com o linguista Roman Jakobson (1896-1982), com o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), com os filósofos Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) e Martin Heidegger (1889-1976), com os surrealistas, entre outros. Sob influência desses pensadores, adotou um questionamento profundo sobre o estatuto da verdade, do ser e do que significa considerar-se “sujeito” diante da complexidade do mundo contemporâneo. Da linguística, extraiu sua concepção de significante e de um inconsciente organizado como linguagem; da antropologia, deduziu a noção de simbólico, que utilizou na tópica SIR (simbólico, imaginário, real), assim como sua releitura universalista da interdição do incesto e do complexo de Édipo.

Durante dez anos, duas vezes por mês, Lacan realizou seu seminário público, aberto a quaisquer interessados, comentando sistematicamente todos os grandes textos do corpus freudiano e dando origem a uma nova corrente de pensamento: o lacanismo, cujos preceitos seriam discutidos não apenas por psicanalistas, mas por intelectuais de peso como Michel Foucault (1926-1984) e Gilles Deleuze (1925-1995).

Em seus seminários, atraiu muitos alunos, fascinados por seu ensino e desejosos de romper com o freudismo acadêmico da primeira geração francesa de psicanalistas. Começou então a ser reconhecido ao mesmo tempo como didata e como clínico, fundando duas escolas de psicanálise, que se dissolveram por divergências internas. Seu senso agudo da lógica da loucura, sua abordagem original do campo das psicoses e seu talento discursivo lhe valeram, ao lado de Françoise Dolto (1908-1988), um lugar especial aos olhos da jovem geração psiquiátrica e psicanalítica.

Em 1951, comprou uma casa de campo a cerca de cem quilômetros de Paris. Retirava-se para lá aos domingos, onde recebia seus pacientes e dava recepções.

Ao lado de sua segunda esposa, Sylvia Bataille, que era atriz, fazia teatro para os amigos, fantasiava-se, dançava, divertia-se e às vezes usava roupas extravagantes. Nessa casa colecionava um número considerável de livros que, ao longo dos anos, formaram uma imensa biblioteca que demonstrava o tamanho de sua paixão pelo trabalho intelectual. Em um cômodo que dava para o jardim, organizou um escritório repleto de objetos de arte. Nessa casa, pendurou o famoso quadro de Gustave Courbet (1819-1877) A origem do mundo.

Depois da morte de Lacan, em 1981, o lacanismo fragmentou-se numa multiplicidade de tendências, grupos, correntes e escolas, sendo implantado de maneiras diversas em muitos países, tendo o Brasil e a Argentina alguns de seus representantes mais férteis. Entre as contribuições mais importantes de Lacan para o campo da educação estão as noções de estádio do espelho e de eu ideal.

O estádio do espelho e o eu ideal

Segundo Lacan, nos primeiros meses de vida de uma criança, não há nada parecido a um eu, com suas funções de individualização e de síntese da experiência. Falta ao bebê o esquema mental de unidade do corpo próprio que lhe permite constituir esse corpo como totalidade, assim como distinguir interno e externo, individualidade e alteridade.

É só entre o sexto e o décimo oitavo mês de vida que tal esquema mental será desenvolvido. Para tanto, faz-se necessário o reconhecimento de si na imagem do espelho ou na identificação com a imagem de outro bebê. Ao reconhecer pela primeira vez sua imagem no espelho, a criança tem uma apreensão global e unificada de seu corpo. Assim, essa unidade do corpo será primeiramente visual e é condição fundamental para o desenvolvimento psíquico do bebê.

As imagens determinam a vida do indivíduo, representam um dispositivo fundamental de socialização e individuação, fazem parte da realidade psíquica. A partir delas, nasce a fantasia. Nesse processo, surge um conceito reelaborado por Lacan, a partir de Freud: o eu ideal, que representa a ideia que o indivíduo tem de si mesmo na forma arcaica e que delimitará suas identificações posteriores.

O eu arcaico, segundo Freud, expulsa o insatisfatório e internaliza as experiências satisfatórias. Para Freud, a constituição do eu se dá de dentro para fora; para Lacan, ao contrário, se dá de fora para dentro. Segundo o francês, para orientar-se no pensar, no sentir e no agir, para aprender a desejar, para ter um lugar na estrutura familiar e social, a criança precisa inicialmente raciocinar por analogia (no sentido da mimesis grega): imitar uma imagem na posição de tipo ideal, adotando, assim, a perspectiva de um Outro. Tais operações de imitação são importantes para a orientação das funções cognitivas e afetivas, e têm valor fundamental na constituição e no desenvolvimento subsequentes do eu em outros momentos da vida madura.

Na alienação do sujeito ao Outro, o infans (o “sem palavras”) se identifica e se experimenta. Começa então a circulação do desejo: fazer-se reconhecer, ser desejado e desejar o desejo do Outro. Imagem, palavra, alimento e cuidados são expressões dos rumos da pulsão, em suas diferentes modalidades: oral, anal, visual e vocal. Esse processo vai inscrevendo as representações no inconsciente, o que dará espaço ao processo de estruturação psíquica do sujeito sustentado pelo desejo do Outro.

Depois de reconhecer-se no espelho, as imagens dos irmãos, do pai, da mãe e de seus substitutos sociais farão parte da “imagem ideal”, necessária para a socialização. Esse dispositivo permitirá a entrada da criança numa trama sócio-simbólica, cujo núcleo é a família, mas que se compõe de outras figuras com função de autoridade. Entre esses personagens, o professor tem papel fundamental.

Dessa forma, a criança introjeta uma imagem que vem de fora (do espelho e dos humanos que a cercam). Por meio do olhar, da linguagem, do toque, da entonação da voz do Outro e de outros aspectos da comunicação inconsciente, se estabelece uma intensa troca (ou uma falha também imensa) entre a criança e a cultura.

Assim nasce o sujeito lacaniano, aquela estrutura com a função de ser o lugar em que o eu pode reconhecer-se, mas onde sua autonomia total se quebra diante da dependência do externo.

Outros conceitos desenvolvidos por Lacan:

Gozo e perversão

Para Lacan, o conceito de gozo implica a ideia de transgressão da lei: desafio, insubmissão ou escárnio. O gozo, portanto, participa da perversão, teorizada por Lacan como um dos componentes estruturais do funcionamento psíquico. Na perversão, o sujeito só encontra prazer quando a lei é transgredida.

Simbólico, Imaginário, Real

Essa tríade de conceitos, a partir de 1953, forma uma estrutura que, segundo Lacan, passaria a determinar e equilibrar as relações intrapsíquicas:
– O simbólico designa a ordem civilizatória a que o sujeito está ligado, como um lugar psíquico em que são reconhecidos os discursos produtores de “verdades”.
– O imaginário se define como um lugar no eu onde são acolhidos os fenômenos de representações ilusórias, utilizados para aplacar as vivências angustiantes advindas do real.
– O real designa qualquer fenômeno, aquilo que ainda não tem representações ou simbolizações no eu, que está no plano das vivências corporais ou emocionais e que, em geral, causa angústia ou sofrimento.

Significante

Esse termo foi introduzido por Ferdinand de Saussure (1857-1913) para designar a parte do signo linguístico que remete à representação psíquica do som (ou imagem acústica), em oposição à outra parte, ou significado, que remete ao conceito.

Retomado por Lacan como um conceito central em seu sistema de pensamento, o significante transformou-se, em psicanálise, no elemento do discurso (consciente ou inconsciente) que fará parte de uma série que, por sua vez, determinará os atos, as palavras e o destino do sujeito, à sua revelia e de acordo com uma nomeação que vem do simbólico.

FONTE: https://revistaeducacao.com.br/2017/05/07/as-principais-contribuicoes-de-jacques-lacan-para-educacao/


O que é identificação para Freud?



A identificação, segundo Freud, é “a mais antiga manifestação de uma ligação afetiva a uma outra pessoa”. Nosso Eu tem origem sempre num laço identificatório inconsciente com o Outro, a partir do qual serei capaz de me identificar e constituir um Eu, através desse Outro que está em relação comigo. É a partir dessa identificação primária que nossos primeiros investimentos no mundo serão feitos e nossa “noção” de Eu começa a se esboçar.

Se estamos vivos é porque fomos capazes de criar um vínculo afetivo com alguém e passamos a existir enquanto Eu através de e na relação entre o eu e esse outro. Nossas identificações apontam sobre como elementos vindos do outro nos afetam. Podemos introjetar (trazer para si), projetar (expulsar para fora de si) ou transformar em ideais traços, valores e pensamentos que encontramos no outro.

Em Psicologia das massas e análise do Eu, o Freud afirma que podemos nos identificar com um outro ao “querer ser como” ele, ao querer “tomar o lugar” do outro e substituí-lo em sua posição. Podemos ter sentimentos de ternura pelo outro, mas também podemos expressar o desejo de eliminar e aniquilar esse mesmo objeto. No canibalismo, o indivíduo incorpora somente os objetos que ele deseja e estima, numa espécie de “afeição devoradora” pelos inimigos. O canibal não devora aqueles de quem não pode gostar de algum modo. Interessante, não é?

Através das identificações, podemos ”querer-ter” algo característico de alguém ou ”ser-como” alguém. Algumas ocorrem pela adoção inconsciente de  traços ou sintomas da pessoa que amamos (pode ser até mesmo uma tosse ou um “tique”). É realmente como se nosso eu “adotasse” certas características do objeto amado, ou mesmo do objeto rival que tem proximidade afetiva com o objeto amado. Toda identificação, portanto, contém um fragmento de verdade sobre nossos afetos e laços com o outro.

Podemos fazer laço com o outro de três formas, segundo Freud: a segunda forma seria a identificação a um Ideal vindo desse Outro, e que agora nos servirá de guia interno (consciente e inconscientemente) para o estabelecimento de novos laços com nossos semelhantes; os outros. Valores, consciência moral e ética são exemplos desses possíveis ideais.

A terceira forma de identificação são as identificações que se dão por “contágio”, quando algo entre meu eu e o eu do outro coincide num determinado ponto. É quando eu posso ou quero me colocar na mesma situação que outrem, porque já vivencio o mesmo ou desejo vivenciá-lo. Por exemplo, quando estamos apaixonados ou carentes e assistimos a um filme romântico, ficamos temporariamente identificados por contágio com um dos personagens apaixonados. São identificações onde podemos dizer “eu também sinto isso” ou “eu também gostaria de sentir isso”.

Freud nos dá um exemplo: se uma garota receber uma carta de alguém que ama secretamente e essa carta, por algum motivo, lhe despertar ciúme, outras garotas a sua volta podem se contagiar com seu sofrimento e ciúme, porque elas também têm ou gostariam de ter um amor secreto.

Embora as identificações sejam constitutivas e muitas possam se tornar parte de um senso de identidade consciente, isso não significa que as identificações tenham o objetivo de se cristalizar em identidades. Pelo contrário; numa análise, vemos que quanto mais nossas identificações conscientes ou inconscientes se confundirem com identidades rígidas e fechadas, mais dificuldade teremos de ocupar lugares e posições psíquicas diversas diante de nossos conflitos e problemas, e sofreremos mais tentando lidar com os mesmos.

O conceito de identificação na psicanálise é complexo e com muitos desdobramentos.  Aqui falamos apenas de um recorte mais freudiano,  Lacan contribuiu ainda mais para pensar o conceito de identificação através da teoria do Estádio do espelho. 


 Patrícia Andrade

Psicanalista e psicóloga, aprimorada em Saúde Mental pelo Instituto A Casa e membro da rede Inconsciente Real

 

Bibliografia:
Kaufmann, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: O legado de Freud e Lacan. Editora ZAHAR – 1993.

Freud, S. Psicologia das massas e análise do Eu. Companhia das letras

FONTE: https://www.inconscientereal.com.br/o-que-e-identificacao-para-freud/

A psicopedagogia no Brasil: Novas Perspectivas

Palestrante: Pp. Jossandra Barbosa Presidente do Sindicato dos Psicopedagogos do Brasil - SINDPSICOPP-BR Historiadora Psicopedagoga Neuropsi...