segunda-feira, 15 de novembro de 2021

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Menos de 10% das pessoas na China se consideram religiosas. Elas possuem muitas crenças e tradições, valorizam a espiritualidade e o cuidado com a alma, mas dificilmente se enquadram em uma religião.

As religiões chinesas mais conhecidas são o budismo e o confucionismo, duas vertentes que derivaram de culturas filosóficas. Mas não são a únicas: é possível encontrar pessoas do islamismo, catolicismo e outras vertentes.

LIBERDADE RELIGIOSA NA CHINA

Em termos oficiais, na China existe liberdade de crença. A realidade, no entanto, é bem diferente. O governo do país está sempre tomando medidas com o objetivo de derrubar religiões no território, principalmente aquelas de origem estrangeira.

Uma das principais religiões da China, forte no ocidente, é o catolicismo. Mas para o governo da China, a única religião que deve prevalecer é o respeito aos governantes.

O presidente é a autoridade suprema da China. Mas não é só isso: deve ser respeitado como um verdadeiro Deus. Por isso o número de crentes na China não para de cair.

As pessoas não podem se manifestar livremente e as igrejas são perseguidas pelo Estado. 

Principais Religiões da China

BUDISMO

Considerada a maior religião da China, o Budismo foi introduzido no país no século I depois de Cristo. Não é uma religiçao tipicamente chinesa, se originou na Ásia central.

O fundador do Budismo é proveniente do Nepal. Trata-se do príncipe Sidarta Gautama, um homem bastante rico, vindo de uma família de posses e grande reinado.

De acordo com a história, Gautama abandonou todo o seu luxo, posses e riquezas para encontrar a verdadeira felicidade, a essência da vida. Depois de várias tentativas frustradas, Gautama decidiu meditar para encontrar a verdade.

Foi quando recebeu a iluminação e se transformou em Buda (que significa “aquele que foi iluminado”), passando a influenciar outras pessoas do seu tempo.

Existem, no entanto, três formas diferentes de Budismo, que seriam facções: tibetano, Han e do Sul. O Budismo da China se tornou tão popular, que agora é conhecido no mundo todo.

Quem vai até a China pode conhecer os inúmeros templos budistas. Eles estão espalhados por todos os cantos e em todas as cidades. Respeitar os espaços sagrados na China é fundamental – sob pena de prisão e multas pesadas.

TAOÍSMO

Diferente do Budismo, o Taoísmo é uma religião originária da China. Surgiu no século II, com base no culto à natureza e aos povos ancestrais. Em termos conceituais, o Taoísmo é visto menos como uma religião e mais como uma doutrina mística e filosófica.

Foi desenvolvida pelo pensador Lao Tse, um dos mais importantes da história da China. As principais características do Taoísmo são: valorização da natureza, crença no poder do universo, em uma existência natural e serena.

De acordo com números recentes, existem na China aproximadamente 25 mil monges praticantes do Taoísmo e 1500 templos.

Assim como o Confucionismo, sobre o qual falaremos a seguir, o Taoísmo não é uma religião, em sua essência, mas sim uma doutrina de viés filosófico. A religiosidade é apenas um dos seus aspectos.

CONFUCIONISMO

O Confucionismo é uma doutrina religiosa e moral, criada pelo pensador Confúcio. Ele viveu no século VI a.C. Para ter uma ideia da força dessa corrente de pensamento, o Confucionismo foi a religião oficial da China por quase dois mil anos.

Entre as principais características dessa religião chinesa está a valorização da família, do pensamento racional e lógico, da humanidade e do respeito aos superiores hierárquicos.

Assim como o Budismo, o Confucionismo é tido como uma das principais religiões da China. Exerce um poder muito grande, não apenas religioso, mas também moral.

Afinal de contas, não se trata propriamente de uma religião, com crenças em céu e inferno, pecado e divindades, mas sim um sistema de normas, de crenças e valores sociais e familiares,

INTERCÂMBIO RELIGIOSO NA CHINA

Assim como muitas das religiões e correntes religiosas chinesas podem ser vistas em outros países, como no Brasil, o oposto também acontece. Com a globalização e a revolução cultural, algumas religiões estão entrando na China.

Claro, é muito mais fácil alguma coisa sair do que entrar na China. Como você viu, eles não estão completamente abertos para novas religiões.

Mas nos dias atuais é possível encontrar, em diversas partes da China, religiões como o islamismo e o catolicismo. São vertentes religiosas bem populares no mundo todo.

O cristianismo é mais presente na parte ocidental, ao passo que o islamismo é forte no Oriente médio.

PARTIDO COMUNISTA DA CHINA

Sim, uma das principais potências capitalistas do mundo é comunista! Existem alguns pesquisadores que afirmam que de comunista a China só tem o nome.

E é justamente o Partido Comunista da China, o único em atividade, que está criando regras mais severas para as igrejas. Por isso o tema religião na China é tão complexo.

Ao mesmo tempo em que existem diversas religiões ativas no país, a liberdade de crença continua sendo reprimida, ainda que por baixo dos panos. As regras são muito severas e as denominações religiosas acabam não encontrando espaço.

Gostou de conhecer um pouco mais sobre as religiões da China? Esse é um país repleto de diferenças culturais, quando comparado aos países do ocidente. Apesar do grande número de religiões, a maioria das pessoas se diz sem religião.

Criou-se o que se chama de ateísmo de Estado, quando o próprio governo estimula as pessoas a não professar nenhuma religião específica. Prevalece na China o respeito ao governo e ao presidente.

Se você conhece algum chinês ou pretende ir para a China, é bom estar por dentro da cultura desse povo. Informação nunca é demais. Agora você está mais informado do que a maioria das pessoas. Aproveite isso.


FONTE: https://yakiobadelivery.com.br/saiba-tudo-sobre-as-religioes-da-china/


sábado, 25 de setembro de 2021

 Paulo Freire (1921-1997)

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O pensamento de Paulo Freire como produto existencial

Por Moacir Gadotti

Paulo Freire nasceu em Recife, em 1921, e conheceu, desde cedo, a pobreza do Nordeste do Brasil, uma amostra dessa extrema pobreza na qual está submersa a nossa América Latina. Desde a adolescência engajou-se na formação de jovens e adultos trabalhadores. Formou-se em Direito, mas não exerceu a profissão, preferindo dedicar-se a projetos de alfabetização. Nos anos 50, quando ainda se pensava na educação de adultos como uma pura reposição dos conteúdos transmitidos às crianças e jovens, Paulo Freire propunha uma pedagogia específica, associando estudo, experiência vivida, trabalho, pedagogia e política.

O pensamento de Paulo Freire – a sua teoria do conhecimento – deve ser entendido no contexto em que surgiu – o Nordeste brasileiro –, onde, no início da década de 1960, metade de seus 30 milhões de habitantes vivia na “cultura do silêncio”, como ele dizia, isto é, eram analfabetos. Era preciso “dar-lhes a palavra” para que “transitassem” para a participação na construção de um Brasil que fosse dono de seu próprio destino e que superasse o colonialismo.

As primeiras experiências do método começaram na cidade de Angicos (RN), em 1963, onde 300 trabalhadores rurais foram alfabetizados em 45 dias. No ano seguinte, Paulo Freire foi convidado pelo Presidente João Goulart e pelo Ministro da Educação, Paulo de Tarso C. Santos, para repensar a alfabetização de adultos em âmbito nacional. Em 1964, estava prevista a instalação de 20 mil círculos de cultura para 2 milhões de analfabetos. O golpe militar, no entanto, interrompeu os trabalhos bem no início e reprimiu toda a mobilização já conquistada.

A partir dessa sua prática, criou o método, que o tornaria conhecido no mundo, fundado no princípio de que o processo educacional deve partir da realidade que cerca o educando. Não basta saber ler que “Eva viu a uva”, diz ele. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.

Paulo Freire foi exilado pelo golpe militar de 1964, porque a Campanha Nacional de Alfabetização no Governo de João Goulart estava conscientizando imensas massas populares que incomodavam as elites conservadoras brasileiras. Passou 75 dias na prisão acusado de “subversivo e ignorante”.

Depois de passar alguns dias na Bolívia, foi para o Chile, onde viveu de 64 a 69 e pôde participar de importantes reformas, conduzidas pelo governo democrata-cristão Eduardo Frei, recém-eleito com o apoio da Frente de Ação Popular. A reforma agrária implicava o deslocamento dos aparelhos de Estado aos campos para estabelecer uma nova estrutura agrária e fazer funcionar os serviços de saúde, transporte, crédito, infra-estrutura básica, assistência técnica, escolas etc.

O governo do Chile procurava novos profissionais e técnicos para apoiar o processo de mudança, principalmente no setor agrário. Paulo Freire foi convidado para trabalhar na formação desses novos técnicos.

O momento histórico que Paulo Freire viveu no Chile foi fundamental para explicar a consolidação da sua obra, iniciada no Brasil. Essa experiência foi fundamental para a formação do seu pensamento político-pedagógico. No Chile, ele encontrou um espaço político, social e educativo muito dinâmico, rico e desafiante, permitindo-lhe reestudar seu método em outro contexto, avaliá-lo na prática e sistematizá-lo teoricamente.

Os educadores de esquerda apoiaram a filosofia educacional de Paulo Freire, mas ele teve a oposição da direita do PDC (Partido Democrata Cristão) que o acusava, em 1968, de escrever um livro “violentíssimo” contra a Democracia Cristã. Era o livro Pedagogia do oprimido, que só seria publicado em 1970. Este foi um dos motivos que fizeram com que Paulo Freire deixasse o Chile no ano seguinte.

A sociedade brasileira e latino-americana da década de 60 pode ser considerada como o grande laboratório onde se forjou aquilo que ficou conhecido como o “Método Paulo Freire”. A situação de intensa mobilização política desse período teve uma importância fundamental na consolidação do pensamento de Paulo Freire, cujas origens remontam à década de 50.

Depois de passar quase um ano em Harvard, no início de 1970, foi para Genebra, onde completou 16 anos de exílio.

Na década de 70 assessorou vários países da África, recém-libertada da colonização européia, auxiliando-os na implantação de seus sistemas de educação. Esses países procuravam elaborar suas políticas com base no princípio da autodeterminação. Sobre uma dessas experiências foi escrita uma das obras mais importantes de Freire que é Cartas a Guiné-Bissau (1977). Paulo Freire assimilou a cultura africana pelo contato direto com o povo e com seus intelectuais, como Amilcar Cabral e Julius Nyerere. Mais tarde, essa influência é sentida na obra que escreve com Antonio Faundez, um educador chileno, exilado na Suíça, que continua com um trabalho permanente de formação de educadores em vários países da África e América Latina.

Nesse período, vem o contato mais próximo com a obra de Gramsci, Kosik, Habermas e outros filósofos marxistas. Parece-me que o marxismo de Paulo Freire nutre-se nas obras desses autores, especialmente Gramsci. Isso se reflete nos diálogos mantidos com os educadores dos Estados Unidos, na última década, entre eles: Henri Giroux, Donaldo Macedo, Ira Shor, Peter MacLaren e Carlos Alberto Torres.

Paulo Freire retorna aos Estados Unidos já com uma bagagem nova, trazida da África, e discute o Terceiro Mundo no Primeiro Mundo com Myles Horton. O diálogo mantido com Myles Horton, em 1989, no livro We Make the Road by Walking: Conversations on Education and Social Change deve ser considerado exemplar. Esse livro foi escrito com muita paixão, esperança e sabedoria. Ambos foram educadores e ativistas políticos. Myles Horton (1905-1990) foi o fundador do Highlander Center, no sul dos Estados Unidos, um centro de estudos que teve grande importância nas décadas de 50 e 60 na luta pelos direitos civis e na educação de jovens e adultos trabalhadores nos Estados Unidos. A vida e a obra de Horton é muito parecida com a de Paulo Freire. Mesmo tendo percorrido caminhos diferentes, eles se encontraram para discutir suas experiências e idéias, encontrando muita semelhança de idéias e métodos de trabalho.

Paulo Freire voltou pela primeira vez para o Brasil em 1979 – definitivamente em 1980 – com o desejo de “reaprendê-lo”. O contato com a situação concreta da classe trabalhadora brasileira e com o Partido dos Trabalhadores deu um vigor novo ao seu pensamento. Podemos até dividir o pensamento dele em duas fases distintas e complementares: o Paulo Freire latino-americano das décadas de 60-70, autor da Pedagogia do oprimido, e o Paulo Freire cidadão do mundo, das décadas de 80-90, dos livros dialogados, da sua experiência pelo mundo e de sua atuação como administrador público em São Paulo.

Sem deixar de ser latino-americano, na segunda fase, Paulo Freire, tendo a Pedagogia do oprimido por eixo central, dialoga com educadores, sociólogos, filósofos e intelectuais de muitas partes do mundo e “reencontra” a Pedagogia do oprimido em 1992, escrevendo Pedagogia da esperança. Esse “último” Paulo Freire, como o chama Antonio Munclus no livro Pedagogía de la contradicción (1988), é um Paulo Freire internacional e transdisciplinar. O seu pensamento não se limita à teoria educacional, pois penetra em áreas tão distintas quanto as áreas das ciências sociais e das ciências empírico-analíticas. Essa transdisciplinaridade da obra de Paulo Freire está associada à outra dimensão: a sua globalidade. O pensamento de Paulo Freire é um pensamento internacional e internacionalista. Mas Paulo Freire é, antes de mais nada, um educador. E é a partir do ponto de vista do educador que funda sua visão humanista-internacionalista (socialista). Por isso é, ao mesmo tempo, homem do diálogo e do conflito.

Desde então, a obra de Paulo Freire tem sido um divisor de águas em relação à prática político-pedagógica tradicional. A partir daí, e em conjunção com outras teorias críticas, numerosas perspectivas teóricas e práticas foram se desenhando em distintas partes do mundo, impactando muitas áreas do conhecimento.


No seu retorno ao Brasil, temos que realçar a sua atividade acadêmica, dando aulas, ministrando cursos especiais, fazendo conferências e orientando teses, uma atividade que demonstra uma enorme vitalidade e produtividade. Talvez seja esse constante interesse por aprender e participar do mundo, de tudo, que faz com que Paulo encontre tanta energia.

Nos anos 80, ele engajou-se sobretudo na luta pela escola pública de qualidade para todos – a escola pública popular – que culmina na ação que realizou, entre 1989 e 1991, junto à Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. O seu livro A educação na cidade (1991) retrata esse novo Paulo, relendo-se com a prática, com o trabalho, na luta concreta pela transformação de um sistema educacional burocrático e obsoleto, dentro do qual – declara ele na dedicatória desse livro – “mudar é difícil, mas é possível e urgente”.

Não era a primeira vez que Paulo Freire lidava diretamente com o ensino público. Aliás, é bom esclarecer porque ainda existem intérpretes de Freire que pensam que ele ocupou-se apenas da educação popular informal. Ele dedicou um grande período da sua vida trabalhando na assessoria aos sistemas educacionais das ex-colônias portuguesas da África. Um dos primeiros artigos publicados por Paulo Freire é sobre a “escola primária” e o mais antigo trabalho escrito de que temos notícia no Instituto Paulo Freire, datado de 1955, fala de como se deve organizar a participação dos pais na escola, seja pública, seja privada.

A obra de Paulo Freire não é um livro de receitas. Ela se constitui de relatos de práticas profundamente refletidas. Como ele disse certa vez: não leu Marx para aplicá-lo na prática; para a compreensão da prática é que teve que buscar em Marx elementos insubstituíveis.

A universalidade da obra de Paulo Freire decorre dessa aliança teoria-prática. Daí ser um pensamento vigoroso. Paulo Freire não pensa pensamentos. Pensa a realidade e a ação sobre ela. Trabalha teoricamente a partir dela. É metodologicamente um pensamento sempre atual e vem ganhando mais força nos últimos anos pela sua compreensão da política que nunca foi orientada por qualquer cartilha.

Na teoria e na prática, Paulo Freire tem uma visceral incompatibilidade com esquemas, principalmente burocráticos. Tanto sua forma de agir quanto de se expressar refletem uma certa rebeldia em relação a paradigmas rígidos. Seu comportamento não se submete a modelos burocráticos e políticos. Sua linguagem não segue os padrões hegemônicos da academia. Para a expressão linguística que abusa do pedantismo e da erudição com a intenção de ser reconhecida cientificamente, Paulo Freire não faz concessão. Através dele, a poesia conseguiu visto permanente para transitar os textos científicos. Sua linguagem é sempre poética e doce. Isso vem crescendo nos seus últimos escritos. Ao lê-lo ou ao ouvi-lo, um grande contador de histórias se coloca diante de nós. Não há leitor que, diante da linguagem freireana, não quebre sua resistência ao texto acadêmico. Creio ser essa uma característica profundamente ligada às suas origens. Há um sabor nordestino em sua obra. O jeito sereno, cativante e afetivo de se expressar é muito marcante na cultura nordestina, da qual Paulo Freire é filho. Seja pela insubordinação aos esquemas, seja pela sua peculiar forma de se expressar, muitos de seus intérpretes encontram, às vezes, dificuldades para classificá-lo. Alguns não hesitam em categorizá-lo como um pensador anarquista. Mas, no meu entender, pelas razões já explicitadas e pela originalidade de sua pedagogia, embora possa ser situado no contexto da pedagogia contemporânea com referência à essa ou àquela corrente do pensamento, ele continua inclassificável.

Os inúmeros leitores de Paulo Freire buscam em sua obra respostas às mais variadas questões. Por isso, ela pode ser lida de diferentes maneiras, segundo o interesse do leitor. Mas todas elas se encontram numa concepção filosófica e metodológica particular do autor.

Sem enumerar em ordem de importância, vou destacar algumas pistas – apenas as suas principais teses – que indicam possíveis leituras sobre sua filosofia e seu método.

Na constituição, o método pedagógico de Paulo Freire fundamentava-se nas ciências da educação, principalmente a psicologia e a sociologia; teve importância capital a metodologia das ciências sociais. A sua teoria da codificação e da de-codificação das palavras e temas geradores (interdisciplinaridade), caminhou passo a passo com o desenvolvimento da chamada “pesquisa participante”.

O que mais chamou atenção de início foi a fato de que o método Paulo Freire “acelerava” o processo de alfabetização de adultos. Lauro de Oliveira Lima foi um dos primeiros a observar esse processo. Ele observou a aplicação do método nas cidades-satélites de Brasília e escreveu um relatório onde sustenta que Paulo Freire parte de “estudos de caráter sociológico” e se baseia na “teoria das comunicações”. Oliveira Lima percebeu que Paulo Freire não queria aplicar ao adulto analfabeto o mesmo método de alfabetização das crianças. Outros já pensavam assim. Todavia, Paulo Freire foi o primeiro a sitematizar e experimentar um método inteiramente criado para a educação de adultos.

O texto vai das primeiras experiências na alfabetização de adultos,  em 1963, onde 300 trabalhadores rurais foram alfabetizados em 45 dias, na cidade de Angicos (RN), passando pelo exílio provocado pela Ditadura Militar (1964-1985), às décadas de 1980 3 1990, quando Freire, já de volta ao Brasil, se engaja na luta pela escola pública de qualidade para todos (escola pública popular), culminando na sua atuação na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, entre 1989 e 1991.

Além dos dados mais biográficos, Godotti também aborda a filosofia educacional  e o método freirianos, com destaque para os três momentos do “Método Paulo Freire”, a investigação temática, a tematização e a problematização, e a política libertária do educador, através da conscientização e do diálogo.

De maneira esquemática, podemos dizer que o “Método Paulo Freire” consiste de três momentos dialética e interdisciplinarmente entrelaçados:

a) a investigação temática, pela qual aluno e professor buscam, no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive, as palavras e temas centrais de sua biografia;

b) a tematização, pela qual eles codificam e decodificam esses temas; ambos buscam o seu significado social, tomando assim consciência do mundo vivido; e

c) a problematização, na qual eles buscam superar uma primeira visão mágica por uma visão crítica, partindo para a transformação do contexto vivido.

Dada essa interdisciplinaridade, a obra de Paulo Freire pode ser vista tomando-o seja como cientista, seja como educador. Contudo, essas duas dimensões supõem uma outra: Paulo Freire não as separa da política. Paulo Freire deve ser considerado também como político. Esta é a dimensão mais importante da sua obra. Ele não pensa a realidade como um sociólogo que procura apenas entendê-la. Ele busca, nas ciências (sociais e naturais), elementos para, compreendendo mais cientificamente a realidade, poder intervir de forma mais eficaz nela. Por isso ele pensa a educação ao mesmo tempo como ato político, como ato de conhecimento e como ato criador.

Todo o seu pensamento tem uma relação direta com a realidade. Essa é sua marca. Ele não se comprometeu com esquemas burocráticos, sejam os esquemas do poder político, sejam os esquemas do poder acadêmico. Comprometeu-se acima de tudo com uma realidade a ser transformada.

Paulo Freire propõe uma nova concepção da relação pedagógica. Não se trata de conceber a educação apenas como transmissão de conteúdos por parte do educador. Pelo contrário, trata-se de estabelecer um diálogo, isso significa que aquele que educa está aprendendo também. A pedagogia tradicional também afirmava isso, só que em Paulo Freire o educador também aprende do educando da mesma maneira que este aprende dele. Não há ninguém que possa ser considerado definitivamente educado ou definitivamente formado. Cada um, a seu modo, junto com os outros, pode aprender e descobrir novas dimensões e possibilidades da realidade na vida. A educação torna-se um processo de formação mútua e permanente.

No pensamento de Paulo Freire, tanto os alunos quanto o professor são transformados em pesquisadores críticos. Os alunos não são uma lata vazia para ser enchida pelo professor.

Mas Paulo Freire pode ainda ser lido pelo seu gosto pela liberdade. Essa seria uma leitura libertária. Como muitos dos seus intérpretes afirmam, a tese central da sua obra é a tese da liberdade-libertação. A liberdade é o ponto central de sua concepção educativa desde suas primeiras obras. A libertação é o fim da educação. A finalidade da educação é libertar-se da realidade opressiva e da injustiça; tarefa permanente e infindável. Para Paulo Freire a realidade opressiva não é “privilégio” dos países do Terceiro Mundo. Em maior ou menor grau, a opressão e a injustiça existem em todo o mundo. Por isso sua pedagogia não é apenas uma pedagogia “terceiromundista”.

A educação visa à libertação, à transformação radical da realidade, para melhorá-la, para torná-la mais humana, para permitir que os homens e as mulheres sejam reconhecidos como sujeitos da sua história e não como objetos.

A libertação como objetivo da educação é fundada numa visão utópica da sociedade e do papel da educação. A educação deve permitir uma leitura crítica do mundo. O mundo que nos rodeia é um mundo inacabado e isso implica a denúncia da realidade opressiva, da realidade injusta, inacabada e, conseqüentemente, a crítica transformadora, portanto, o anúncio de outra realidade. O anúncio é a necessidade de criar uma nova realidade. Essa nova realidade é a utopia do educador.

Paulo Freire foi chamado certa vez de andarilho da utopia. A utopia estimula a busca: ao denunciar uma certa realidade, a realidade vivida, temos em mente a conquista de uma outra realidade, uma realidade projetada. Esta outra realidade é a utopia. A utopia situa-se no horizonte da experiência vivida. Em Paulo Freire, a realidade projetada (utopia) funciona como um dínamo de seu pensamento agindo diretamente sobre a práxis. Portanto, não há nele uma teoria separada da prática.

Há ainda que mencionar dois elementos fundamentais da sua filosofia educacional: a conscientização e o diálogo. A conscientização não é apenas tomar conhecimento da realidade. A tomada de consciência significa a passagem da imersão na realidade para um distanciamento desta realidade.

A conscientização ultrapassa o nível da tomada de consciência através da análise crítica, isto é, do desvelamento das razões de ser desta situação, para constituir-se em ação transformadora desta realidade.

O diálogo consiste em uma relação horizontal e não vertical entre as pessoas implicadas, entre as pessoas em relação. No seu pensamento, a relação homem-homem, homem-mulher, mulher-mulher e homem-mundo são indissociáveis. Como ele afirma: “ninguém educa ninguém. Ninguém se educa sozinho. Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Nesse processo se valoriza o saber de todos. O saber dos alunos não é negado. Todavia, o educador também não fica limitado ao saber do aluno. O professor tem o dever de ultrapassá-lo. É por isso que ele é professor e sua função não se confunde com a do aluno.

A rigor, não se poderia falar em “Método Paulo Freire”, pois se trata muito mais de uma teoria do conhecimento e de uma filosofia da educação do que de um método de ensino. Mas, para sermos mais precisos, deveríamos chamar a esse “método” de “sistema”, “filosofia” ou “teoria do conhecimento”.

Como diz Linda Bimbi no prefácio à edição italiana da Pedagogia do oprimido (1980): “a originalidade do método Paulo Freire não reside apenas na eficácia dos métodos de alfabetização mas, sobretudo, na novidade de seus conteúdos para conscientizar. A conscientização nasce em um determinado contexto pedagógico e apresenta características originais: a) com as novas técnicas, aprende-se uma nova visão do mundo, a qual comporta uma crítica da situação presente e a relativa busca de superação, cujos caminhos não são impostos, são deixados à capacidade criadora da consciência livre; b) não se conscientiza um indivíduo isolado, mas sim, uma comunidade, quando ela é totalmente solidária a respeito de uma situação-limite comum. Portanto, a matriz do método, que é a educação concebida como um momento do processo global de transformação revolucionária da sociedade, é um desafio a toda situação pré-revolucionária, e sugere a criação de atos pedagógicos humanizantes (e não humanísticos), que se incorporam numa pedagogia da revolução”.

Com isso, Linda Bimbi procura mostrar a estreita ligação existente entre o método educacional de Paulo Freire e o momento de transformação social. O que equivale a dizer que o “Método Paulo Freire” é comprometido com uma mudança total da sociedade.

O método de alfabetização de Paulo Freire nasceu no interior do MCP – Movimento de Cultura Popular – do Recife que, no final da década de 50, criara os chamados círculos de cultura. Segundo o próprio Paulo Freire, os círculos de cultura não tinham uma programação feita a priori. A programação vinha de uma consulta aos grupos que estabeleciam os temas a serem debatidos. Cabia aos educadores tratar a temática que o grupo propunha. Mas era possível acrescentar à sugestão deles outros temas que, na Pedagogia do oprimido, Paulo Freire chamava de “temas de dobradiça” (Essa escola chamada vida, pp. 14-15), isto é, assuntos que se inseriam como fundamentais no corpo inteiro da temática, para melhor esclarecer ou iluminar a temática sugerida pelo grupo popular. Como insistia ele, existe, indiscutivelmente, uma sabedoria popular, um saber popular que se gera na prática social de que o povo participa, mas, às vezes, o que está faltando é uma compreensão mais solidária dos temas que compõem o conjunto desse saber.

Os resultados positivos obtidos com esse trabalho com grupos populares no MCP levaram Paulo Freire a propor a mesma metodologia para a alfabetização. “Se é possível fazer isso, alcançar esse nível de discussão com grupos populares, independentemente de eles serem ou não alfabetizados, por que não fazer o mesmo numa experiência de alfabetização?”, perguntava-se Paulo Freire. “Por que não engajar criticamente os alfabetizandos na montagem de seu sistema de sinais gráficos enquanto sujeitos dessa montagem e não enquanto objetos dela?” (Essa escola chamada vida, pp. 14-15).

Essa intuição foi muito importante no desenvolvimento posterior da obra de Paulo Freire. Ele descobrira que a forma de trabalhar, o processo do ato de aprender, era determinante em relação ao próprio conteúdo da aprendizagem. Não era possível, por exemplo, aprender a ser democrata com métodos autoritários.

A participação do sujeito da aprendizagem no processo de construção do conhecimento não é apenas algo mais democrático, mas demonstrou ser também mais eficaz. Ao contrário da concepção tradicional da escola, que se apoiava em métodos centrados na autoridade do professor, Paulo Freire comprovou que os métodos novos, em que alunos e professores aprendem juntos, são mais eficientes.

GADDOTI, Moacir. O pensamento de Paulo Freire como produto existencial. In: GADDOTI, Moacir (Org.) Paulo Freire: uma biobibliografia. São Paulo: Cortez Editora, 1996, pp. 70-83

FONTE: https://petecaportal.wordpress.com/2017/06/07/portal-de-educacao-tecnologica-e-artistica-publica-adaptacao-da-pedagogia-da-autonomia-de-paulo-freire/

Nota: Postagem completa? Acesse o link acima.
 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O ESTOICISMO




O Estoicismo é  uma escola filosófica de origem grega, fundada por volta do ano 300 a.C., por Zenão de Cício. O Estoicismo vê a filosofia constituída de três partes interligadas: a física, a lógica e a ética. É a sua ética, porém,  que mais influenciará o pensamento ocidental e o Cristianismo  dos primeiros séculos e até hoje muitos de seus fundamentos estão presentes na filosofia contemporânea.

A idéia de uma razão divina a governar o mundo, a visão do homem como um ser racional e cidadão do mundo além da condenação da exaltação das emoções são alguns dos princípios estóicos. Defendiam ainda a igualdade entre os homens e criam que são as paixões as produtoras de males como ambição,  vaidade, crueldade, por exemplo.

O que mais se destacou no campo ético da filosofia estóica foi o ideal de ATARAXIA, a imperturbabilidade, a ser perseguida pelo homem que busca ser sábio. Ser sábio, nessa direção, é ser feliz e, para ser sábio, o homem precisa se harmonizar com a natureza, suportando os sofrimentos da existência, dominando suas paixões até alcançar a vida contemplativa onde não mais sofrerá diante dos acontecimentos naturais na ordem das coisas, atingindo a serenidade.

SÊNECA E A CONSTÂNCIA DO SÁBIO

Sigamos com a reflexão em torno do texto de Sêneca, A CONSTÂNCIA DO SÁBIO, buscando suas contribuições  sobre a arte de enfrentar problemas nos relacionamentos humanos, especialmente as injúrias ou ofensas graves e as contumélias, ou insultos leves.

Comecemos pela lúcida assertiva abaixo:

            “Não há nada, na Natureza, de tão sacro que não seja atingido por algum desrespeito”. (Sêneca: 2007, p. 25)

Sêneca nos afirma, em seu distante tempo histórico, que nem as coisas divinas estão fora do desejo de alguém intentar contra sua magnitude, fato ainda e tão mais presente nos dias de hoje, quer através da negação de Deus, do sectarismo  religioso e até de posturas belicosas e destrutivas, em nome do sagrado.

O homem que busca ser virtuoso, claro, deve estar consciente de que está infinitamente mais exposto aos ataques daqueles que querem alvejá-lo, apenas porque movimenta-se para a luz, só  por isso.

Para esse enfrentamento, Sêneca identifica como importante a atitude de reação perante injúrias e insultos como um exercício de paciência, ânimo e capacidade de armazenar energia para prosseguir e não se deixar abater.

No capítulo II, o autor busca distinguir entre injúria ou ofensa e a simples contumélia, ou seja, o insulto provocativo de pouca monta ou importância.

A injúria, esclarece, é mais grave do que o insulto, pois busca intencionalmente fazer o mal a alguém, diminuir esse alguém. Se esse alguém já se tornou sábio, no entanto, olhará o fato sem se alterar, convicto de que nada interior perde pois, se já tem a virtude, essa injúria não lhe atingirá em sua intimidade e profundidade. Ilustrando a ideia exposta Sêneca lembra o exemplo do filósofo Estilpão ao responder a Demétrio, conquistador de sua cidade, Megara,  se havia sido espoliado de alguma coisa, ao dizer: “NADA PERDI. TUDO O QUE É MEU ESTÁ COMIGO”. Sábia resposta para quem tinha sido espoliado nas coisas materiais, mas que conservava, incólume, suas conquistas, seu verdadeiro tesouro: idéias, valores, virtudes.

Sêneca apresenta a afirmativa síntese de Estilpão, nos termos seguintes: “EU, DE MINHA PARTE, APESAR DE TUDO TER PERDIDO,  MANTENHO-ME NA POSSE PLENA DO QUE ME PERTENCE.”

Continuando a apresentar seus argumentos a partir do exemplo de Estilpão, o autor considera que a injúria pode acontecer sempre, pois é fruto da ação deliberada de alguém, mas não significa que tenha ressonância junto àquele que é sábio, capaz de suportar golpes tais como: “acusador contratado, pedras caluniosas, poderosos irritados e roubalheiras…”(idem, p. 43).

Somos humanos e, por essa razão, Sêneca entende que ninguém recebe uma injúria sem alguma perturbação, ainda que rápida, mas se esse alguém já é um sábio, mantém-se firme, bem disposto e bem-humorado, paciente e com grandeza de alma.

A partir do capítulo VII, o filósofo estóico analisará a contumélia, ou insulto, uma ofensa menor, mais queixume do que maldade ou vingança.

Os melindres e os desejos de destaques não atendidos, quando interiorizados, tornam algumas pessoas alteradas emocionalmente e que passam a se apresentar como indivíduos soberbos e insolentes.

CONTUMÉLIA é palavra derivada do vocábulo “desprezo”, diz o autor em destaque. Os indivíduos que agem movidos por essa emoção são denominados de “adultos criançolas”, o que hoje chamaríamos de indivíduos imaturos, que mesmo se encontrando  na fase adulta fisiológica, mantêm fortes  traços comportamentais infantilizados.

O sábio reage a esses como quem enfrenta crianças que brincam de modo desagradável, exigindo corrigenda. A reação do sábio é como a do médico diante do paciente que manifesta sua fraqueza e criancice. O médico é seguro e o sábio reage com segurança às contumélias diversas, às grosserias, tentativas de corrupção e até bofetadas, por identificar a infantilização de seus autores.

Nos capítulos seguintes, Sêneca comenta a fragilidade do enlouquecido Imperador Calígula ao enfrentar e fomentar as contumélias e destaca as reações sábias dos gregos Sócrates e Antístenes.

Finalmente, com grande sabedoria, o filósofo estóico recomenda que não nos fixemos nessas pequeninas coisas sob pena de comprometermos nossa tarefa de realizar as coisas necessárias à aquisição da sabedoria, pois não há quem não esteja apto a desferir a contumélia, já que ela está ao alcance de todos.

De modo brilhante, conclui que há o aspirante a sábio e o verdadeiro sábio diante das injúrias e insultos. O primeiro é o homem, o segundo é o sábio. O primeiro luta, o segundo já desfruta da vitória.

O recado final de Sêneca fica para meditação de todos nós:

            “CUIDA ENTÃO DE DEFENDER O LUGAR QUE A NATUREZA TE OUTORGOU.”
Que lugar é esse? A sabedoria.


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Bibliografia:

JAPIASSÚ, H.  & MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. 3ª ed. RJ: Jorge Zahar ed., 1996.

SÊNECA. A Constância do Sábio. SP: ed. Escala , 2007.

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[1] Contumélias : Expressão usada por Sêneca para indicar os insultos leves, menos graves do que as injúrias

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Estado laico: o que é?




Um Estado é considerado laico quando promove oficialmente a separação entre Estado e religião. A partir da ideia de laicidade, o Estado não permitiria a interferência de correntes religiosas em assuntos estatais, nem privilegiaria uma ou algumas religiões sobre as demais. O Estado laico trata todos os seus cidadãos igualmente, independentemente de sua escolha religiosa, e não deve dar preferência a indivíduos de certa religião.

O Estado também deve garantir e proteger a liberdade religiosa de cada cidadão, evitando que grupos religiosos exerçam interferência em questões políticas. Por outro lado, isso não significa dizer que o Estado é ateu, ou agnóstico. A descrença religiosa é tratada da mesma forma que os diversos tipos de crença.

laicismo é uma doutrina que defende que a religião não deve ter influência nos assuntos de Estado. Essa ideia foi responsável pela separação moderna entre a Igreja e o Estado e ganhou força com a Revolução Francesa (1789-1799). Portanto, podemos dizer que o Estado laico nasce com a Revolução Francesa e que a França é a mãe do laicismo.

Nos anos que se seguiram à revolução, o Estado francês tomou medidas em direção ao laicismo propriamente dito.


  • 1790: todos os bens da Igreja foram nacionalizados;
  • 1801: a Igreja passou para a tutela do Estado;
  • 1882: o governo determina que o sistema de ensino público deve ser laico;
  • 1905: a França se tornou um Estado Laico, separando definitivamente Estado e Igreja e garantindo a liberdade filosófica e religiosa;
  • 2004: entra em vigor uma lei que proíbe vestes e símbolos religiosos em quaisquer estabelecimentos de ensino.

Vale ainda mencionar o caso dos Estados Unidos e a separação entre Igreja e Estado. A Constituição Americana foi aprovada em 1787 – e portanto, antes da Revolução Francesa – não criava nenhum vínculo entre Igreja e Estado, o que pode nos levar ao entendimento de que este tenha sido o primeiro país laico. Porém, a Constituição não deixava explícito que eles deveriam estar separados, apenas não fazia qualquer menção ao tema. Foi apenas na primeira emenda constitucional, em 1791, que se estabelece que “o Congresso não fará lei estabelecendo religião oficial, ou proibindo o livre exercício delas”.

No entanto, essa emenda tratava apenas do governo federal, e muitos estados continuaram religiosos depois da ratificação. Foi apenas com o caso Every vs Board of Education, em 1947, que a Suprema Corte incorporou a Establishment Cause, tornando os Estados Unidos da América definitivamente laico.

POSIÇÕES DO ESTADO EM RELAÇÃO À RELIGIÃO

Apesar de a laicidade ser adotada em diversos países mundo afora (alguns exemplos são Estados Unidos, Japão, Canadá, Áustria e África do Sul), ainda existem outras formas de relação entre Estado e religião. Abaixo, relacionamos algumas delas:

Estado confessional

O Estado confessional é aquele que adota oficialmente uma ou mais religiões. Existe influência religiosa nas decisões do Estado, mas o poder secular predomina. São exemplos de Estados confessionais:

  • Reino Unido: a Inglaterra, maior nação do país, adota o cristianismo anglicano como religião oficial. Bispos anglicanos têm direito a 26 vagas na Câmara dos Lordes (equivalente ao nosso Senado). Na prática, é o primeiro-ministro e a Câmara dos Comuns que concentram o poder político;
  • Dinamarca: o Estado dinamarquês adota o cristianismo luterano como sua religião. Na prática, há ampla liberdade religiosa no país, onde vivem muitos imigrantes muçulmanos;
  • Butão: a constituição do país estabelece o budismo tibetano como religião oficial. Essa nação asiática garante liberdade religiosa, mas tem colocado limites a práticas de outras religiões (como atividades missionárias e construção de templos);
  • Arábia Saudita (islamismo): adota oficialmente o Islã e proíbe a prática de qualquer outra religião. Todos os cidadãos sauditas devem professar a fé islâmica, sob pena de serem executados pelo crime de apostasia.

Estado teocrático

Nas teocracias, as decisões políticas e jurídicas passam pelas regras da religião oficial adotada. Em países teocráticos, a religião pode exercer o poder político de forma direta, quando membros do próprio clero têm cargos públicos, ou de forma indireta, quando as decisões dos governantes e juízes (não religiosos) são controladas pelo clero.

Exemplos de Estados teocráticos são: o Irã, que adota o islamismo como religião oficial e possui um aiatolá como chefe de Estado; e o Vaticano, o país-sede da Igreja Católica, cujo chefe de Estado é o próprio papa.

Estado ateu

Um Estado ateu é caracterizado pela proibição ou perseguição a práticas religiosas. O Estado não apenas se separa da religião, mas a combate. Exemplos de ateísmo de Estado podem ser encontrados em experiências socialistas ou comunistas do século XX: União Soviética (URSS), Cuba, China, Coreia do Norte, Camboja, entre outros.

Hoje em dia, parte desses países adota a liberdade religiosa e o secularismo: a Rússia é um país laico; a China garante a liberdade de crença, apesar de permitir apenas um conjunto de religiões registradas; e a Coreia do Norte também permite oficialmente a liberdade religiosa, apesar de que cerca de 64% da população norte-coreana não professa nenhuma religião, segundo David Alton.

E O BRASIL?

O Brasil é o maior país católico do mundo, com uma estimativa de 127 milhões de fiéis, o que equivale a 65% da população do país e aproximadamente 12% dos católicos no mundo (dados de 2013 do IBGE). Mesmo com maioria católica, o país é oficialmente um Estado laico, ou seja, adota uma posição neutra no campo religioso, busca a imparcialidade nesses assuntos e não apoiando, nem discrimina nenhuma religião.

Apesar de citar Deus no preâmbulo, Constituição Federal afirma no artigo 19, inciso I:

“É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.” 

Esse trecho de nossa Constituição determina, portanto, que o Estado brasileiro não pode se manifestar religiosamente. Também vale notar que o artigo 5º, inciso VI também diz:

“É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;” 

Dessa forma, a liberdade religiosa na vida privada está completamente mantida, desde que devidamente separada do Estado.

Em 2012, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello fez afirmações nesse sentido em sua decisão sobre o aborto de anencéfalos. Ele afirmou que “os dogmas de fé não podem determinar o conteúdo dos atos estatais.” Também sustentou que: “as concepções morais religiosas — unânimes, majoritárias ou minoritárias — não podem guiar as decisões de Estado, devendo, portanto, se limitar às esferas privadas.”

Sugestão: Confira nosso post sobre Liberdade Religiosa na Constituição Brasileira!

Polêmica: o caso dos crucifixos em repartições públicas

Uma das principais polêmicas em relação à laicidade do Estado brasileiro é o uso de símbolos religiosos, como crucifixos, em repartições públicas. De acordo com críticos, essa prática fere os princípios do Estado laico porque, uma vez que instituições públicas ostentam símbolos de uma religião, estariam privilegiando-a em detrimento das demais crenças (ou descrenças). 

A controvérsia já motivou decisões como a do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), que determinou a retirada de crucifixos de todos os prédios da Justiça gaúcha, em 2012. Mas a decisão foi revertida mais tarde pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que entendeu que a colocação dos crucifixos “não exclui ou diminui a garantia dos que praticam outras crenças, também não afeta o Estado laico, porque não induz nenhum indivíduo a adotar qualquer tipo de religião”.

Outros pontos em que a laicidade não estaria sendo respeitada são a frase “Deus seja louvado”, imprimida no canto das notas da moeda oficial do país, o real, e a expressão “sob proteção de Deus” inserida no preâmbulo da Constituição Federal.

A bancada evangélica

Além da presença de referências religiosas em instituições estatais, existe preocupação em relação ao crescimento do grupo de deputados federais e senadores evangélicos. A bancada evangélica se opõe a pautas como descriminalização do aborto, da eutanásia e leis contra a discriminação contra homossexuais e transexuais, enquanto defendem projetos como o Estatuto da Família, que reconhece como único núcleo familiar a união entre um homem e uma mulher, e a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos.

O número de evangélicos apenas cresce no país e isso se refletiu na composição do Congresso. De acordo com dados da Câmara, a bancada evangélica teria cerca de 200 integrantes (198 deputados, incluindo alguns que não estão no exercício do mandato, e 4 senadores).

A presença de um amplo grupo identificado com correntes religiosas específicas é vista como um desafio para a laicidade do Estado, uma vez que muitas das pautas citadas possuem relação com as convicções religiosas dos parlamentares (a ideia de família apenas como união entre homem e mulher, por exemplo).

A bancada também não é unanimidade entre os próprios evangélicos. Teólogos ouvidos no 10º seminário LGBT na Câmara entendem que o grupo é fundamentalista, porque busca impor suas convicções morais a toda a sociedade, além de fazer proselitismo religioso (ou seja, promover esforços para converter pessoas para sua religião).

Conclusão

Como você pode perceber, a laicidade é um tema que gera muitas controvérsias, pois implica a manutenção de um equilíbrio tênue entre liberdade de crença e imparcialidade do Estado em relação à religião. Esse equilíbrio é delicado, mas tem como benefício esperado um Estado que respeita a diversidade de crença existente dentro da população. E você, como enxerga a questão da laicidade? Deixe sua opinião!

E você, acha fundamental a garantia do Estado Laico? Deixe seu comentário!

Referências

UOL – Câmara

Luiz Magno Barreto Silva

Formado em Administração de Empresas, pós Graduação em Gestão e Governança em TI. Experiência em segurança da informação com ênfase em gestão de identidade e compliance.

FONTE: https://www.politize.com.br/estado-laico-o-que-e/ 

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